sábado, 28 de março de 2026

Dois dedos de testa

 https://www.youtube.com/watch?v=0xXprHT_tt0&list=RD0xXprHT_tt0&start_radio=1

Ser mulher aqui é ser mulher de quem?
Ter um papel assinado para ser alguém
Ser decente, quem se apresenta à mãe
Mesmo que o filho não valha a mulher que tem
Ser mulher aqui é ser submissa
Rezar o terço, dizer sim e ir à missa
Não ter opinião, ser bonita
Ser tão nova quanto o estado e andar bem vestida

E eu que tenho a liberdade debaixo dos braços
Tenho brasas a arder debaixo dos pés
Pus uma pedra sobre o meu passado.
E se o que eu sou ofende quem és...

[Deixa-me abanar a cabeça, põe mais vinho nesta mesa
Que eu, eu quero esquecer
Quero ser o centro da festa, o assunto da conversa
Eu, eu quero aparecer
Deixa-me abanar a cabeça, põe mais vinho nesta mesa
Que eu, que eu hoje faço um brinde
Quero ser dona da festa, tenho dois dedos de testa
Sou a voz e nem sou boa ouvinte]

     "Foi deixada, abandonada
     É carente e mal amada
     Está tão triste e tão sozinha
     Pobrezinha
     Sem apelido e sem marido
     E de quem será o filho?
     Está cansada, ela trabalha
     Coitadinha, coitadinha"

Carolina Deslandes





Bucólica


A vida é feita de nadas;
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;
De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;
De poeira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma Mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga




quinta-feira, 26 de março de 2026

Livros

https://www.youtube.com/watch?v=mXxkhJf-b4M&list=RDmXxkhJf-b4M&start_radio=1

Tropeçavas nos astros, desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
E, sem dúvida, sobretudo o verso
É o que pode lançar mundos no mundo

Tropeçavas nos astros, desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los para fora das janelas
Talvez isso nos livre de lançarmo-nos
Ou o que é muito pior por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras

Tropeçavas nos astros, desastrada
Mas para mim foste a estrela entre as estrelas


Caetano Veloso




quarta-feira, 18 de março de 2026

Amostra sem valor


Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

António Gedeão




A paixão


Saímos do amor
como de uma catástrofe aérea
Havíamos perdido a roupa
os papéis
a mim faltava-me um dente
e a ti a noção do tempo
Era um ano longo como um século
ou um século curto como um dia?
Pelos móveis
pela casa
desperdícios quebrados:
copos, fotos, livros desfolhados
Éramos os sobreviventes
de um derrube
de um vulcão
das águas arrebatadas
e despedimo-nos com a vaga sensação
de haver sobrevivido
embora não soubéssemos para quê.

Cristina Peri Rossi




Te libero de mí


Te libero de mí, de mis males,
de mi mal genio, de los domingos
por la tarde en donde nunca puedo más,
del odio a mis cumpleaños,
de no saber cómo hacer
para regalarte algo que no pierdas.

Te libero de mi desengaño,
de tu karma, de mis novedades,
de la contradicción que represento.

Te libero de mis llamadas
que te saben a autocompasión,
de mis enredos, de mi cabello suelto,
largo, sin peinar.

Te libero de mi consciencia,
del desconcierto a fin de mes,
de la caída, de la llegada,
de mi huida inevitable.

Te dejo libre para que me dejes,
para que me veas de lejos
y me quieras, menos.

fin

Mario Benedetti




Dois dedos de testa

  https://www.youtube.com/watch?v=0xXprHT_tt0&list=RD0xXprHT_tt0&start_radio=1 Ser mulher aqui é ser mulher de quem? Ter um papel as...