quinta-feira, 28 de maio de 2026

«Pode ser Pepsi?»


                             a Bernardo Pinto de Almeida

Gosto de ver
hieróglifos nas pegadas das gaivotas.
Não gosto que os feriados calhem ao
fim-de-semana. Gosto dos frescos de Pompeia
em dias de mais calor. Não gosto
nada que os gregos misturem água no vinho.
Prefiro os heróis sem nome ao
nome dos grandes heróis. Distingo a dor
dos que perdem da total perda de dor. Gosto
de sentir a música de volta à minha vida.
Não gosto do Mediterrâneo
transformado em cemitério.
Prefiro o fundo da alma a fundos de
investimento. Distingo liquidez dos bancos
da liquidez de teus olhos. Gosto de
uma salada Cesar numa piazza de Roma.
Não gosto de pedir Coca-Cola e ouvir:
«Pode ser Pepsi?»

João Luís Barreto Guimarães





Aberto todos os dias


O mundo
aberto lá fora. Difícil cansar-me dele. O céu
a entrar pela janela. O músculo do homem comum.
As laranjeiras de Córdova. Brindar com
água da
chuva. Os peixes do Nilo urinando na
mesma água onde nadam. O vinho que fez
um estágio nas caves do Douro
e passou. A lua a quem eu uivo a cada noite
(em segredo). Um relâmpago à janela:
electrocardiograma
de Deus. A orgia
dos seixos na espuma. Um ministro que mentiu.
Cerejas no mês de Maio. Sardinhas
no mês
de Junho. Os pés que saem da areia ornados
com missangas de prata. Os enfermeiros
exaustos que saem de
mais um turno. A Vitória de Samotrácia aparecendo atrasada
perguntando quelle heure est-il? à estátua da
Vénus de Milo. Jesus Cristo
num
decote. A maldade de Putin. A carne
de um dióspiro. E o
ministro não se demite. Nem um
só dia desperdiçado. Estar à disposição do mundo. Como
quem ergue a verdade com a luva
da linguagem.

João Luís Barreto Guimarães





Escreve sempre que precisares


Escreve sempre que precisares de me dizer
que há gelo nas tuas mãos e nas paredes do frigorífico.
Os legumes que trouxe ontem
não sobrevivem a mais do que uma geada,
muito menos nós.

Escreve sempre que precisares, podes
dizer-me outra vez que nunca houve inverno,
que este ano não há verão,
que estamos aqui e não estamos porque não sabemos
se somos nós ou se somos aquelas
quatro pessoas que vão à rua agora,
encontraram a porta certa.

Escreve sempre que precisares, faz
uma lista de compras, uma lista de desejos,
anota todos os pedidos que deixaste
em poemas atrasados.
Escreve sempre que precisares
de mais um postal com selo e carimbo.
Escreve sempre que riscares
na tua agenda mais uma morada.

Sempre que eu precisar vais devolver-me
uma caligrafia rebuscada que não é a tua,
curvas a mais que não fazias na letra d.
Já não há desses manuscritos,
só eu e os carteiros aprendemos a decifrá-los
(e toda a gente sabe que nem isso é verdade).
Vai escrevendo. Sempre que eu precisar,
as frases podem desviar deixas decoradas,
repetidas como as mentiras,
demasiado gastas para serem inócuas.

Escreve em vez de costurares.
Mesmo que soubesses, não há remendos suficientes,
arranhaste sem possibilidade de cura os joelhos,
os cotovelos e as canelas
(dançar sempre foi um antídoto fora do teu alcance).
Escreve que eu vejo nas tuas as minhas quedas,
os meus soluços nessas curvas
a mais que não fazes na letra d:
as tuas linhas são rectas, verticais e justas,
as minhas letras são apenas caracteres.

Escreve sempre que puderes
só em vez de apenas,
recursos humanos em vez de
resíduos urbanos. Talvez sejamos mais
do que pessoas, temos tamanhos diferentes
e não servimos nos lugares que nos foram destinados.

Escreve sempre que precisares de uma porta
onde caibas,
nunca trago chaves comigo.

Margarida Ferra






Nos dias tristes não se fala de aves


Nos dias tristes não se fala de aves.
Liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.

Nos dias tristes é Inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento e diz-se
- bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.

Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.

Filipa Leal





domingo, 24 de maio de 2026

Tens-me em tuas mãos


Tens-me em tuas mãos
e lês-me como um livro.
Sabes o que eu não sei
e contas-me as coisas que eu não digo a mim mesmo.
Aprendo mais contigo do que comigo.
És como um milagre de todas as horas,
como uma dor sem lugar.
Se não fosses mulher serias meu amigo.
Às vezes quero falar contigo sobre mulheres
que ao teu lado persigo.
És como o perdão
e eu sou como teu filho.
Que bons olhos tens quando estás comigo?
Quão distante te tornas e quão ausente
quando eu te sacrifico à solidão!
Doce como o teu nome, como um figo,
esperas-me em teu amor até que eu chegue.
És como a minha casa,
és como a minha morte, meu amor.

Jaime Sabines






XXXIII

Te amo porque no te pareces a nadie. Y porque eres orgulloso como yo.

Alfonsina Storni





Meditação anciã


Aqui eu fui feliz aqui fui terra
aqui fui tudo quanto em mim se encerra
aqui me senti bem aqui o vento veio
aqui gostei de gente e tive mãe
em cada árvore e até em cada folha
aqui enchi o peito e mesmo até desfeito
eu fui aquele que da vida vil se orgulha
Aqui fiquei em tudo aquilo em que passei
um avião um riso uns olhos uma luz
eu fui aqui aquilo tudo até a que me opus

Ruy Belo





O futuro


Aos domingos, iremos ao jardim.
Entediados, em grupos familiares,
Aos pares,
Dando-nos ares
De pessoas invulgares,
Aos domingos iremos ao jardim.
Diremos, nos encontros casuais
Com outros clãs iguais,
Banalidades rituais,
Fundamentais.
Autómatos afins,
Misto de serafins
Sociais
E de standardizados mandarins,
Teremos preconceitos e pruridos,
Produtos recebidos
Na herança
De certos caracteres adquiridos.
Falaremos do tempo,
Do que foi, do que já houve...
E sendo já então
Por tradição
E formação Antiburgueses
- Solidamente antiburgueses -,
Inquietos falaremos
Da tormenta que passa
E seus desvarios.

Seremos aos domingos, no jardim,
Reaccionários.

Reinaldo Ferreira





domingo, 17 de maio de 2026

Fria claridade


No meio da claridade
Daquele tão triste dia
Grande, grande era a cidade
E ninguém me conhecia

Rostos, carros, movimentos
Traziam noite e segredo
Só eu me sentia lento
E avançava quase a medo

Só a saudade da pátria
Longínqua, me acompanhava
Quisera voltar à serra
E ouvir o vento e a água brava

Quisera voltar ao bosque
Onde sei que sou lembrado
Voltar às leiras de Afife
E ouvir a canção tão mansa
Do pastor que guarda o gado

Mas nas ruas sinuosas
Ainda o rumor crescera
E eu contemplava assombrado
Minhas mãos ontem com rosas
Minhas mãos hoje de cera

Então passaram por mim
Uns olhos lindos, depois
Julguei sonhar, vendo enfim
Dois olhos, como há só dois

Em todos os meus sentidos
Tive presságios de adeus
E os olhos logo perdidos
Afastaram-se dos meus

Acordei, a claridade
Fez-se maior e mais fria
Grande, grande era a cidade
E ninguém me conhecia

Pedro Homem de Mello





O que será


O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda a alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

Chico Buarque





Os nossos heróis da adolescência mudam tanto


Os nossos heróis da adolescência mudam tanto.
Enchem-se de caracóis e de suplícios. Morre-lhes o gato,
prostituem-se, não chegam a ser advogados (ainda bem).

O pior é que alguns deixam de ler e de beber.
Aumentam o ego e a barriga, não sabem estar sozinhos.
Já nem sequer tentam parecer interessantes.
Vão ao supermercado comprar ovos e massa
e, se passam na praia ao fim da tarde, não se descalçam,
para não encherem os pés, e os carros, de areia.

Filipa Leal





[...]


Hoje, também os carros dançam. As casas movem-se levemente. 
E eu – que mudei de casa e de roupa, de cidade e de cama, de
palavras... Eu, que mudei de música e de carro, de saudade, de
quarto... Eu – que mudei de computador e de rua, de eternidade
e de paisagem, de abraço e de clima... Eu – que mudei de língua
e de lágrimas, de deus e de caderno, de crenças e de céu... Eu –
que mudei de lume, que mudei de medos... Eu – que mudei de
planos, de lençóis, de secretária... Eu – que mudei de óculos e
de rumo, de amigos, de champô, de rituais e de supermercado...
Eu – que mudei de tudo que em quase nada mudou, mudei de
dentro de mim para dentro de ti, meu amor.

Filipa Leal






Vésperas portuguesas


o dia corre de poente para nascente, 
a chuva é um lençol tenso sobre os velhos que separam
as lembranças, com palavras que não chegam
a dizer: esquecem os subterfúgios do tempo
e avançam cambaleantes pelas grandes fissuras
entregues ao despovoamento alucinante

no interior dos carros, os crimes
são ligeiras confidências

Rui Nunes





[tanto tempo casta]


tanto tempo casta
tanto tempo apenas
admirada, nunca
amada, agora
presenças transparentes
me atendem
de dia impaciente
conto as horas
que impedem tua chegada

virás como sempre
trajando o manto
do homem invisível
de noite vens velar
o pranto previsível
promessas leves
que a dor é breve
preliminar do amor
que me atravessa

no reverso da língua
que lambe a mão
e sorve o leite
surde o azeite
que queima o dorso
do corpo ocre

o atirador
rechaça a corda
do arco terso
a flecha
corta.

Margarida Vale do Gato





Siringe - III


Ferramentas sujas, grelhas justas,
justificações – não queria justificar
nada, apenas dizer: vejo. Ou então: sei.
A face exterior do lado de dentro
não se distingue da
face interior do lado de fora;
fina membrana, a mesma vibração.

Pensava nesse órgão tradutor usado pelas aves: siringe,
o lado de dentro do lado de fora do pássaro,
que é obviamente este onde estou,
estamos. O lado que não canta senão mimeografado.

Siringe: equacionar a questão de saber se as aves
são canoras apenas porque sem elas o mundo
não cantaria. A beleza do mundo precisa de aves,
banda-sonora? Um arco de violino no rebordo da mesa
faz vibrar ínfimos grânulos sobre a superfície lisa, e
eles desenham padrões geométricos, arrumam o espaço.
Nós, não. Muitas vezes, não. Gritos e mais gritos na desordem
dos vidros partidos, tiros, granadas, explosões.

Schön, shine, a mesma origem; brilho, beleza.

Os ralos não têm siringe. O que escondem
de semelhante sob as asas? Quando cantam
a luz fica mais prateada,
mesmo se são duas ordens distintas de acontecimentos.

Começava a entender um pouco melhor?
Um ano depois, a sete mil metros de altitude, lia estas notas.
O som das turbinas do avião mantinha-nos no ar,
vibrava. A esta altura já nenhuma ave canta; e todavia, imitamos assim
a siringe das aves, as asas dos ralos, desajeitadamente, roucamente.
A seringa recolhe, transporta, inocula. Matéria
contra matéria na deslocação do ar; nós, que não somos daqui,
que talvez tenhamos vindo mesmo só para isto:
o espanto e a tradução.

Rosa Maria Martelo





«Pode ser Pepsi?»

                              a Bernardo Pinto de Almeida Gosto de ver hieróglifos nas pegadas das gaivotas. Não gosto que os feriados calhe...