domingo, 1 de novembro de 2026

Muriel


Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava […]

Ruy Belo





De mãe


O cuidado de minha poesia
aprendi foi de mãe, 
mulher de pôr reparo nas coisas, 
e de assuntar a vida. 
A brandura de minha fala
na violência de meus ditos
ganhei de mãe, 
mulher prenhe de dizeres, 
fecundados na boca do mundo. 
Foi de mãe todo o meu tesouro
veio dela todo o meu ganho
mulher sapiência, yabá, 
do fogo tirava água
do pranto criava consolo. 
Foi de mãe esse meio riso
dado para esconder alegria inteira
e essa fé desconfiada, pois, 
quando se anda descalço 
cada dedo olha a estrada. 
Foi mãe que me descegou 
para os cantos milagreiros da vida 
apontando-me o fogo 
disfarçado em cinzas
e a agulha do tempo
movendo no palheiro. 
Foi mãe que me fez sentir as flores 
amassadas debaixo das pedras; 
os corpos vazios rente às calçadas 
e me ensinou, insisto, foi ela, 
a fazer da palavra artifício 
arte e ofício do meu canto 
da minha fala.

Conceição Evaristo





O que faz falta

https://www.youtube.com/watch?v=uGwNcqrujuo&list=RDuGwNcqrujuo&start_radio=1

Quando a corja topa da janela
O que faz falta
Quando o pão que comes sabe a merda
O que faz falta

O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta

Quando nunca a noite foi dormida
O que faz falta
Quando a raiva nunca foi vencida
O que faz falta

O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é acordar a malta
O que faz falta

Quando nunca a infância teve infância
O que faz falta
Quando sabes que vai haver dança
O que faz falta

O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

Quando um cão te morde a canela
O que faz falta
Quando a esquina há sempre uma cabeça
O que faz falta

O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

Quando um homem dorme na valeta
O que faz falta
Quando dizem que isto é tudo treta
O que faz falta

O que faz falta é agitar a malta
O que faz falta
O que faz falta é libertar a malta
O que faz falta

Se o patrão não vai com duas loas
O que faz falta
Se o fascista conspira na sombra
O que faz falta

O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é dar poder a malta
O que faz falta

José Afonso








 

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Gita

https://www.youtube.com/watch?v=Yh-s_Jxx79s&list=RDYh-s_Jxx79s&start_radio=1

Às vezes você me pergunta
Por que é que eu sou tão calada
Não falo de amor quase nada
Nem fico sorrindo ao seu lado

Você pensa em mim a toda hora
Me come, me cospe, me deixa
Talvez você não entenda
Mas hoje eu vou lhe mostrar

Eu sou a a luz das estrelas
Eu sou a cor do luar
Eu sou as coisas da vida
Eu sou o medo de amar

Eu sou o medo do fraco
A força da imaginação
O bluff do jogador
Eu sou, eu fui, eu vou

Eu sou o seu sacrifício
A placa de contramão
O sangue no olhar do vampiro
E as juras de maldição

Eu sou a vela que acende
Eu sou a luz que se apaga
Eu sou a beira do abismo
Eu sou o tudo e o nada

Por que você me pergunta?
Perguntas não vão lhe mostrar
Que eu sou feita da terra
Do fogo, da água e do ar

Você me tem todo o dia
Mas não sabe se é bom ou ruim
Saiba que eu estou em você
Mas você não está em mim

Eu sou o amargo da língua
A mãe, o pai e o avô
O filho que ainda não veio
O início, o fim e o meio
O início, o fim e o meio

Raul Seixas





Esta gente


Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis
Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre
Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome
E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada
Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo.

Sophia de Mello Breyner





Em Creta, com o Minotauro


Em Creta, com o Minotauro,
sem versos e sem vida,
sem pátrias e sem espírito,
sem nada, nem ninguém,
que não o dedo sujo,
hei-de tomar em paz o meu café.

Jorge de Sena





Passeio dos prodígios


Vamos lá contar as armas
Tu e eu, de braço dado
Nesta estrada meio deserta
Não sabemos quanto tempo
As tréguas vão durar

Há vitórias e derrotas
Apontadas em silêncio
No diário imaginário
Onde empilhamos as razões para lutar
Repreendo os meus fantasmas
Ao virar de cada esquina
Por espantarem a inocência
Quantas vezes te odiei
Com medo de te amar

Vejo o fundo da garrafa
Acendo mais outro cigarro
Tudo serve de cinzeiro
Quando os deuses brincam
É para magoar

Vamos enganar o tempo
Saltar para o primeiro comboio
Que arrancar da mais próxima estação
Para quê fazer projetos
Quando sai tudo ao contrário?
Pode ser que por milagre
Troquemos as voltas aos deuses
Entre o caos e o conflito
A vontade e a desordem
Não podemos ver ao longe
E corremos sempre o risco
De ir longe demais
Somos meros transeuntes
No passeio dos prodígios
Somos só sobreviventes
Com carimbos falsos nas credenciais

Jorge Palma





Querida Litty


Há já meses
com inusitada frequência
que o carteiro me não deixa cartas tuas.
Será amnésia do homem
ou talvez as empilhe
num recanto limpo
do seu quarto de solteiro
solteirão
e algum dia mas trará
fita rosa
todas juntas
como um banquete
para o esquecido faminto
que pode imaginar-se
desde agora
uma clara catarata
de ternuras e recordações.

Juan Carlos Onetti





terça-feira, 20 de outubro de 2026

Estive pensando de novo no amor


Há os que vivem para recebê-lo
e os que vivem para dá-lo.

Claro que existem aqueles para quem ambas as coisas são verdade,
mas nunca na mesma medida.

Aqueles que o têm para dar são
como cardeais na neve. Tão fáceis
e lindamente iluminados. Alguns
são como coelhos. Difíceis de ver
exceto para aqueles que deles fariam presa:
toda aquela suavidade e tremor e sangue.

Aqueles que o querem
não podem ser saciados. Com olhos de águia e tais garras,
qualquer criatura peluda serve. É tão fácil
arrancar um coração quando ele pulsa tão forte.

Eu vagueio pelo inverno.
Eu sei o que sou.

Vievee Francis





Ainda assim


O amor, se é amor, nunca se vai.
Ele fica incrustado em nós,
como veios de ouro na Terra,
esperando a luz,
esperando ser atingido.

Alice Walker





Lisboa ainda


Lisboa não tem beijos nem abraços
não tem risos nem esplanadas
não tem passos
nem raparigas e rapazes de mãos dadas
tem praças cheias de ninguém
ainda tem sol mas não tem
nem gaivota de Amália nem canoa
sem restaurantes sem bares nem cinemas
ainda é fado ainda é poemas
fechada dentro de si mesma ainda é Lisboa
cidade aberta
ainda é Lisboa de Pessoa alegre e triste
e em cada rua deserta
ainda resiste.

Manuel Alegre (2020)





Possibilidades


Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievski.
Prefiro-me a gostar das pessoas
que a amar a humanidade.
Prefiro para uma emergência ter agulha e linhas.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro falar de outras coisas com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não os escrever.
Prefiro no amor os pequenos aniversários
para festejar todos os dias.
Prefiro os moralistas que nada me prometem.
Prefiro uma bondade algo prudente
a outra confiante em demasia.
Prefiro a terra à civil.
Prefiro os países conquistados
aos conquistadores.
Prefiro guardar as minhas reservas.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro as fábulas de Grimm às primeiras páginas dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro gavetas.
Prefiro muitas coisas que não menciono aqui
a outras também aqui não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
aos dispostos em bicha para o número.
Prefiro o tempo de insetos ao de estrelas.
Prefiro fazer figas.
Prefiro não perguntar se ainda demora e quando é.
Prefiro tomar em consideração a própria possibilidade
de ter a existência o seu sentido.

Wislawa Szymborska