sábado, 1 de agosto de 2026

No te salves


No te quedes inmóvil
al borde del camino
no congeles el júbilo
no quieras con desgana
no te salves ahora
ni nunca
no te salves
no te llenes de calma
no reserves del mundo
sólo un rincón tranquilo
no dejes caer los párpados
pesados como juicios
no te quedes sin labios
no te duermas sin sueño
no te pienses sin sangre
no te juzgues sin tiempo
pero si
pese a todo
no puedes evitarlo
y congelas el júbilo
y quieres con desgana
y te salvas ahora
y te llenas de calma
y reservas del mundo
sólo un rincón tranquilo
y dejas caer los párpados
pesados como juicios
y te secas sin labios
y te duermes sin sueño
y te piensas sin sangre
y te juzgas sin tiempo
y te quedas inmóvil
al borde del camino
y te salvas
entonces
no te quedes conmigo

Mario Benedetti





Com unhas e dentes


Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces.

Luís Filipe Parrado





Esperar que voltes


esperar que voltes é tão inútil como o
sorriso escancarado dos mortos na
necrologia dos jornais

e no entanto de cada vez que
a noite se rasga em barulhos no elevador e
um telefone se debruça de um sexto andar

sinto que ainda ficou uma palavra minha
esquecida na tua boca

e que vais voltar
para
a
devolver

Alice Vieira





quinta-feira, 23 de julho de 2026

Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto

https://www.youtube.com/watch?v=iUUfDb_NxHg&list=RDX97ktzIjIr4&index=7 

Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada


António Lobo Antunes





Se alguém pudesse olhar


Se alguém pudesse olhar para nós lá do alto, veria que o mundo está repleto de pessoas que correm apressadas, transpiradas e muito cansadas, e que atrás delas correm, atrasadas, as suas almas perdidas, incapazes de acompanhar o passo dos donos. Daqui resulta uma grande confusão; as almas perdem a cabeça e as pessoas deixam de ter coração. As almas sabem que perderam o dono, mas as pessoas, frequentemente, não se dão conta de que perderam a alma.

Olga Tokarczuk





O amor tudo mata quando morre


Eu morro dia a dia, sabendo-o, sentindo-o,
com a morte do amor em mim.
Esvaiu-se, ensandeceu, partiu,
espécie de sol sepultado por mãos ímpias,
numa cratera de lua, algures,
ou na tristeza de um retrato emudecido
pela ausência de vozes em redor.
Sem ele, a casa ficou deserta
de risos, acenos e afectos, de tudo,
as mãos ficaram ásperas, secas,
a pele do rosto gretada, fria,
e o sangue tornou-se lento e espesso,
incapaz de dar vida às pequenas folhas
orvalhadas da imaginação das noites.
A erva cresce em redor de mim,
os limões ficaram ressequidos sobre
a toalha bordada, num canto da mesa.
O amor tudo mata quando morre,
detendo no seu movimento elementar,
a máquina que ilumina o coração do dia.

José Jorge Letria






[...]


E posto que viver me é excelente
cada vez gosto mais de menos gente.

Agostinho da Silva





Uma falha no programa

https://www.youtube.com/watch?v=X97ktzIjIr4&list=RDX97ktzIjIr4&start_radio=1

Estou à espera
mais uma vez
de ser gentilmente votada
ao meu lugar de amante
intensa, grata e gozada

e é melhor
que fique assim,
nem me queixo, inconveniente
sou para todo o protocolo
e além disso algo demente;

tenha embora certo interesse
falta-me um tudo-nada, charme
aliás,
agradeço que entre portas
me deixem dedicar mil vezes,
no meio dos uivos e lodos,
a minha vulnerabilidade-
- mas se por acaso, só desta vez,

for mesmo da minha cabeça
e acontecer de outro modo,
que hei-de agradar-vos a todos.

tenha embora certo interesse
falta-me um tudo-nada, charme

tenha embora certo interesse
falta-me um tudo-nada, charme
charme e desprendimento

João Aguardela 





terça-feira, 30 de junho de 2026

Como tú


Así es mi vida,
piedra,
como tú. Como tú,
piedra pequeña;
como tú, piedra ligera;
como tú,
canto que ruedas por las calzadas
y por las veredas;
como tú,
guijarro humilde de las carreteras;
como tú,
que en días de tormenta
te hundes
en el cieno
de la tierra
y luego centelleas
bajo los cascos
y bajo las ruedas;
como tú,
que no has servido
para ser ni piedra
de una lonja,
ni piedra de una audiencia,
ni piedra de un palacio,
ni piedra de una iglesia;
como tú,
piedra aventurera;
como tú,
que tal vez estás hecha
sólo para una honda,
piedra pequeña
y ligera.

Léon Felipe





segunda-feira, 29 de junho de 2026

[...]

[...]

E eu caminharia por todos os desertos deste mundo e mesmo morta continuaria a procurar-te, a ti, que foste o lugar do amor.

Alejandra Pizarnik





Depois da tristeza


Depois da tristeza, o que é que fica?
O que fica depois da dor, da solidão
e da amargura? O que há depois do desconsolo
e do desespero? Pensaste que havia um fundo
a que chegar no escuro abismo, mas onde
está o fundo? A que poço assomar-se para saciar
a desgraça e o infurtúnio? Quando
terminará, se é que alguma vez termina,
e de algum modo, essa descida sem pausa
aos infernos da desolação e do nada?

José Infante





terça-feira, 9 de junho de 2026

Deep river

https://www.youtube.com/watch?v=u6cZiGP4V_o

Deep river, my home is over Jordan,
Deep river, Lord, I want to cross over into campground.
Oh, don’t you want to go to that gospel feast,
That promised land where all is peace?
Oh don’t you want to go to that promised land,
That land where all is peace?
Deep river, my home is over Jordan,
Deep river, Lord, I want to cross over into campground.




domingo, 7 de junho de 2026

Quinta canção (Lisboa, meu amor)


Lisboa tem um vestido azul feito de mar e guerra. E cheira a laranjas maduras. Quando as gaivotas trazem no bico os primeiros pedaços de sol para acender o dia, Lisboa deixa correr os cabelos pelo Tejo e o povo pelas ruas. À mesma hora, a coragem agita no sangue duas grandes asas inquietas. Por todas as janelas destruídas, já o mar entrou, derrubando acácias, cantando hinos de espuma. E porque toda a coragem é necessária, toda a esperança é legítima.


Chamar-te a ti, Lisboa, camarada,
e depois, eu sei lá, enlouquecer.
Que a loucura é quase um grão de nada
e tu tens um nome de mulher.

Ou dizer que és a minha namorada.
Devagar. Não vá alguém saber
que fizemos amor de madrugada
e tu trazes um filho por nascer.

Se eu inventar de noite a liberdade
de poder beijar-te os olhos e morrer,
no teu ventre não há fado nem saudade
mas apenas os filhos que eu fizer.

E pode ser que eu guarde a tempestade
de ter que aqui ficar. E então dizer
que sobre a minha boca ninguém há-de
pôr rosas de silêncio, se eu quiser.

Joaquim Pessoa





Está bem. Façamos de conta

Está bem. Façamos de conta
que não nos conhecemos.
Como se não tivéssemos brincado
juntos na areia.
E no entanto sabes que me ajudaste
a escavar um buraco
até tocarmos
a água no fundo.
A água do mar.

Goliarda Sapienza




Agradecimento póstumo

                                      
                                      A A., por me ter deixado só
                                      quando eu mais precisava de mim mesma.

muitas estações desfilaram indiferentes
ao seu próprio avesso
e à minha perplexidade
trouxeram-me clareza, alguns copos a mais em certas noites
e manhãs de irremediável lucidez, cabelos brancos
primeiro um, o batedor, depois batalhões incontroláveis deles

como hoje estou com tempo
olho para trás quase 30 anos
exatamente
para onde permaneces soerguido, quase te falhava a voz
numa cama tão velha quanto o destino:
- o que queres de mim?

nada, meu amor de outra vida, que a costa fica longe
pelo menos a 30 anos de braçadas e desvios de rota
e nada disto importa no final das contas
nem a longa viagem de perdas
de sentido obscuro
nem que ergamos a taça às cicatrizes silenciosas
mas não mudas.

Violeta Runa




No te salves

No te quedes inmóvil al borde del camino no congeles el júbilo no quieras con desgana no te salves ahora ni nunca no te salves no te llenes ...