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segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Porque éramos amigos


Porque éramos amigos e, às vezes, 

nos amávamos; 
talvez para acrescentar outro interesse 
aos muitos que já nos obrigavam, 
decidimos jogar jogos de inteligência. 

Colocámos um tabuleiro à nossa frente: 
igual em peças, em valor, 
em possibilidades de movimento.
Aprendemos as regras, jurámos respeitá-las, 
e o jogo começou. 

Aqui estamos nós, um século depois, sentados, 
ponderando intensamente 
como desferir o golpe final que aniquile
de modo inapelável, e para sempre, o outro.

Rosario Castellanos





segunda-feira, 27 de maio de 2024

Retorno

Has muerto tantas veces; nos hemos despedido
en cada muelle,
en cada andén de los desgarramientos,
amor mío, y regresas
con otra faz de flor recién abierta
que no te reconozco hasta que palpo
dentro de mí la antigua cicatriz
en la que deletreo arduamente tu nombre.

Rosario Castellanos


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Destino

Matamos o que amamos. O resto
nunca esteve vivo.
Ninguém está tão perto. A nenhum outro fere
um esquecimento, uma ausência, às vezes menos.
Matamos o que amamos. Que cesse esta asfixia
de respirar por um pulmão distante!
O ar não é suficiente
para os dois. E não basta a terra
para os corpos juntos
e a ração de esperança é pouca
e a dor não se pode dividir.

O homem é um animal de solidões,
cervo com uma flecha no flanco
que foge e se dessangra.

Ah, porém o ódio, sua fixação insone
de pupilas de vidro; sua atitude
que alterna entre repouso e ameaça.

O cervo vai beber e na água aparece
o reflexo do tigre.

O cervo bebe a água e a imagem. Torna-se
– antes que o devorem – (cúmplice, fascinado)
igual ao seu inimigo.

Damos a vida apenas ao que odiamos.

Rosario Castellanos