quinta-feira, 28 de maio de 2026

«Pode ser Pepsi?»


                             a Bernardo Pinto de Almeida

Gosto de ver
hieróglifos nas pegadas das gaivotas.
Não gosto que os feriados calhem ao
fim-de-semana. Gosto dos frescos de Pompeia
em dias de mais calor. Não gosto
nada que os gregos misturem água no vinho.
Prefiro os heróis sem nome ao
nome dos grandes heróis. Distingo a dor
dos que perdem da total perda de dor. Gosto
de sentir a música de volta à minha vida.
Não gosto do Mediterrâneo
transformado em cemitério.
Prefiro o fundo da alma a fundos de
investimento. Distingo liquidez dos bancos
da liquidez de teus olhos. Gosto de
uma salada Cesar numa piazza de Roma.
Não gosto de pedir Coca-Cola e ouvir:
«Pode ser Pepsi?»

João Luís Barreto Guimarães





Aberto todos os dias


O mundo
aberto lá fora. Difícil cansar-me dele. O céu
a entrar pela janela. O músculo do homem comum.
As laranjeiras de Córdova. Brindar com
água da
chuva. Os peixes do Nilo urinando na
mesma água onde nadam. O vinho que fez
um estágio nas caves do Douro
e passou. A lua a quem eu uivo a cada noite
(em segredo). Um relâmpago à janela:
electrocardiograma
de Deus. A orgia
dos seixos na espuma. Um ministro que mentiu.
Cerejas no mês de Maio. Sardinhas
no mês
de Junho. Os pés que saem da areia ornados
com missangas de prata. Os enfermeiros
exaustos que saem de
mais um turno. A Vitória de Samotrácia aparecendo atrasada
perguntando quelle heure est-il? à estátua da
Vénus de Milo. Jesus Cristo
num
decote. A maldade de Putin. A carne
de um dióspiro. E o
ministro não se demite. Nem um
só dia desperdiçado. Estar à disposição do mundo. Como
quem ergue a verdade com a luva
da linguagem.

João Luís Barreto Guimarães





Escreve sempre que precisares


Escreve sempre que precisares de me dizer
que há gelo nas tuas mãos e nas paredes do frigorífico.
Os legumes que trouxe ontem
não sobrevivem a mais do que uma geada,
muito menos nós.

Escreve sempre que precisares, podes
dizer-me outra vez que nunca houve inverno,
que este ano não há verão,
que estamos aqui e não estamos porque não sabemos
se somos nós ou se somos aquelas
quatro pessoas que vão à rua agora,
encontraram a porta certa.

Escreve sempre que precisares, faz
uma lista de compras, uma lista de desejos,
anota todos os pedidos que deixaste
em poemas atrasados.
Escreve sempre que precisares
de mais um postal com selo e carimbo.
Escreve sempre que riscares
na tua agenda mais uma morada.

Sempre que eu precisar vais devolver-me
uma caligrafia rebuscada que não é a tua,
curvas a mais que não fazias na letra d.
Já não há desses manuscritos,
só eu e os carteiros aprendemos a decifrá-los
(e toda a gente sabe que nem isso é verdade).
Vai escrevendo. Sempre que eu precisar,
as frases podem desviar deixas decoradas,
repetidas como as mentiras,
demasiado gastas para serem inócuas.

Escreve em vez de costurares.
Mesmo que soubesses, não há remendos suficientes,
arranhaste sem possibilidade de cura os joelhos,
os cotovelos e as canelas
(dançar sempre foi um antídoto fora do teu alcance).
Escreve que eu vejo nas tuas as minhas quedas,
os meus soluços nessas curvas
a mais que não fazes na letra d:
as tuas linhas são rectas, verticais e justas,
as minhas letras são apenas caracteres.

Escreve sempre que puderes
só em vez de apenas,
recursos humanos em vez de
resíduos urbanos. Talvez sejamos mais
do que pessoas, temos tamanhos diferentes
e não servimos nos lugares que nos foram destinados.

Escreve sempre que precisares de uma porta
onde caibas,
nunca trago chaves comigo.

Margarida Ferra






Nos dias tristes não se fala de aves


Nos dias tristes não se fala de aves.
Liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.

Nos dias tristes é Inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento e diz-se
- bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.

Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.

Filipa Leal





domingo, 24 de maio de 2026

Tens-me em tuas mãos


Tens-me em tuas mãos
e lês-me como um livro.
Sabes o que eu não sei
e contas-me as coisas que eu não digo a mim mesmo.
Aprendo mais contigo do que comigo.
És como um milagre de todas as horas,
como uma dor sem lugar.
Se não fosses mulher serias meu amigo.
Às vezes quero falar contigo sobre mulheres
que ao teu lado persigo.
És como o perdão
e eu sou como teu filho.
Que bons olhos tens quando estás comigo?
Quão distante te tornas e quão ausente
quando eu te sacrifico à solidão!
Doce como o teu nome, como um figo,
esperas-me em teu amor até que eu chegue.
És como a minha casa,
és como a minha morte, meu amor.

Jaime Sabines






XXXIII

Te amo porque no te pareces a nadie. Y porque eres orgulloso como yo.

Alfonsina Storni





Meditação anciã


Aqui eu fui feliz aqui fui terra
aqui fui tudo quanto em mim se encerra
aqui me senti bem aqui o vento veio
aqui gostei de gente e tive mãe
em cada árvore e até em cada folha
aqui enchi o peito e mesmo até desfeito
eu fui aquele que da vida vil se orgulha
Aqui fiquei em tudo aquilo em que passei
um avião um riso uns olhos uma luz
eu fui aqui aquilo tudo até a que me opus

Ruy Belo





O futuro


Aos domingos, iremos ao jardim.
Entediados, em grupos familiares,
Aos pares,
Dando-nos ares
De pessoas invulgares,
Aos domingos iremos ao jardim.
Diremos, nos encontros casuais
Com outros clãs iguais,
Banalidades rituais,
Fundamentais.
Autómatos afins,
Misto de serafins
Sociais
E de standardizados mandarins,
Teremos preconceitos e pruridos,
Produtos recebidos
Na herança
De certos caracteres adquiridos.
Falaremos do tempo,
Do que foi, do que já houve...
E sendo já então
Por tradição
E formação Antiburgueses
- Solidamente antiburgueses -,
Inquietos falaremos
Da tormenta que passa
E seus desvarios.

Seremos aos domingos, no jardim,
Reaccionários.

Reinaldo Ferreira





domingo, 17 de maio de 2026

Fria claridade


No meio da claridade
Daquele tão triste dia
Grande, grande era a cidade
E ninguém me conhecia

Rostos, carros, movimentos
Traziam noite e segredo
Só eu me sentia lento
E avançava quase a medo

Só a saudade da pátria
Longínqua, me acompanhava
Quisera voltar à serra
E ouvir o vento e a água brava

Quisera voltar ao bosque
Onde sei que sou lembrado
Voltar às leiras de Afife
E ouvir a canção tão mansa
Do pastor que guarda o gado

Mas nas ruas sinuosas
Ainda o rumor crescera
E eu contemplava assombrado
Minhas mãos ontem com rosas
Minhas mãos hoje de cera

Então passaram por mim
Uns olhos lindos, depois
Julguei sonhar, vendo enfim
Dois olhos, como há só dois

Em todos os meus sentidos
Tive presságios de adeus
E os olhos logo perdidos
Afastaram-se dos meus

Acordei, a claridade
Fez-se maior e mais fria
Grande, grande era a cidade
E ninguém me conhecia

Pedro Homem de Mello





O que será


O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda a alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

Chico Buarque





Os nossos heróis da adolescência mudam tanto


Os nossos heróis da adolescência mudam tanto.
Enchem-se de caracóis e de suplícios. Morre-lhes o gato,
prostituem-se, não chegam a ser advogados (ainda bem).

O pior é que alguns deixam de ler e de beber.
Aumentam o ego e a barriga, não sabem estar sozinhos.
Já nem sequer tentam parecer interessantes.
Vão ao supermercado comprar ovos e massa
e, se passam na praia ao fim da tarde, não se descalçam,
para não encherem os pés, e os carros, de areia.

Filipa Leal





[...]


Hoje, também os carros dançam. As casas movem-se levemente. 
E eu – que mudei de casa e de roupa, de cidade e de cama, de
palavras... Eu, que mudei de música e de carro, de saudade, de
quarto... Eu – que mudei de computador e de rua, de eternidade
e de paisagem, de abraço e de clima... Eu – que mudei de língua
e de lágrimas, de deus e de caderno, de crenças e de céu... Eu –
que mudei de lume, que mudei de medos... Eu – que mudei de
planos, de lençóis, de secretária... Eu – que mudei de óculos e
de rumo, de amigos, de champô, de rituais e de supermercado...
Eu – que mudei de tudo que em quase nada mudou, mudei de
dentro de mim para dentro de ti, meu amor.

Filipa Leal






Vésperas portuguesas


o dia corre de poente para nascente, 
a chuva é um lençol tenso sobre os velhos que separam
as lembranças, com palavras que não chegam
a dizer: esquecem os subterfúgios do tempo
e avançam cambaleantes pelas grandes fissuras
entregues ao despovoamento alucinante

no interior dos carros, os crimes
são ligeiras confidências

Rui Nunes





[tanto tempo casta]


tanto tempo casta
tanto tempo apenas
admirada, nunca
amada, agora
presenças transparentes
me atendem
de dia impaciente
conto as horas
que impedem tua chegada

virás como sempre
trajando o manto
do homem invisível
de noite vens velar
o pranto previsível
promessas leves
que a dor é breve
preliminar do amor
que me atravessa

no reverso da língua
que lambe a mão
e sorve o leite
surde o azeite
que queima o dorso
do corpo ocre

o atirador
rechaça a corda
do arco terso
a flecha
corta.

Margarida Vale do Gato





Siringe - III


Ferramentas sujas, grelhas justas,
justificações – não queria justificar
nada, apenas dizer: vejo. Ou então: sei.
A face exterior do lado de dentro
não se distingue da
face interior do lado de fora;
fina membrana, a mesma vibração.

Pensava nesse órgão tradutor usado pelas aves: siringe,
o lado de dentro do lado de fora do pássaro,
que é obviamente este onde estou,
estamos. O lado que não canta senão mimeografado.

Siringe: equacionar a questão de saber se as aves
são canoras apenas porque sem elas o mundo
não cantaria. A beleza do mundo precisa de aves,
banda-sonora? Um arco de violino no rebordo da mesa
faz vibrar ínfimos grânulos sobre a superfície lisa, e
eles desenham padrões geométricos, arrumam o espaço.
Nós, não. Muitas vezes, não. Gritos e mais gritos na desordem
dos vidros partidos, tiros, granadas, explosões.

Schön, shine, a mesma origem; brilho, beleza.

Os ralos não têm siringe. O que escondem
de semelhante sob as asas? Quando cantam
a luz fica mais prateada,
mesmo se são duas ordens distintas de acontecimentos.

Começava a entender um pouco melhor?
Um ano depois, a sete mil metros de altitude, lia estas notas.
O som das turbinas do avião mantinha-nos no ar,
vibrava. A esta altura já nenhuma ave canta; e todavia, imitamos assim
a siringe das aves, as asas dos ralos, desajeitadamente, roucamente.
A seringa recolhe, transporta, inocula. Matéria
contra matéria na deslocação do ar; nós, que não somos daqui,
que talvez tenhamos vindo mesmo só para isto:
o espanto e a tradução.

Rosa Maria Martelo





Cuidado, Espanha, com a tua própria Espanha!


Cuidado, Espanha, com a tua própria Espanha!
Cuidado com a foice sem o martelo,
cuidado com o martelo sem a foice!
Cuidado com a vítima que se faz de vítima,
com o carrasco que se faz de vítima,
e com o indiferente que se faz de vítima!
Cuidado com aquele que, antes de o galo cantar,
te negará três vezes,
e com aquele que, depois, te negou três vezes!
Cuidado com os crânios sem tíbias,
e com as tíbias sem crânios!
Cuidado com os novos poderosos!
Guarda-te daquele que come os teus cadáveres,
e daquele que devora vivos os teus mortos!
Cuidado com os cem por cento leais!
Cuidado com o céu deste lado do ar,
e cuidado com o ar para além do céu!
Cuidado com aqueles que te amam!
Cuidado com os teus heróis!
Cuidado com os teus mortos!
Cuidado com a República!
Cuidado com o futuro!
César Vallejo





Yo te deseo


Yo te deseo la locura, el valor,
los anhelos, la impaciencia.
Te deseo la fortuna de los amores
y el delirio de la soledad.
Te deseo el gusto por los cometas,
por el agua y los hombres.
Te deseo la inteligencia y el ingenio.
Te deseo una mirada curiosa,
una nariz con memoria,
una boca que sonría
y maldiga con precisión divina,
unas piernas que nunca envejezcan,
un llanto que te devuelva la entereza.
Te deseo el sentido del tiempo
que tienen las estrellas,
el temple de las hormigas,
la duda de los templos.
Te deseo fe en los augurios,
en la voz de los muertos,
en la boca de los aventureros,
en la paz de los hombres que olvidan su destino,
en la fuerza de tus recuerdos
y en el futuro como promesa
donde cabe todo lo que aún no te sucede…

Ángeles Mastretta





quarta-feira, 29 de abril de 2026

Balada para um homem na multidão


Este homem que entre a multidão
enternece por vezes destacar
é sempre o mesmo aqui ou no japão
a diferença é ele ignorar.

Muitos mortos foram necessários
para formar seus dentes um cabelo
vai movido por pés involuntários
e endoidece ser eu a percebê-lo.

Sentam-no à mesa de um café
num andaime ou sob um pinheiro
tanto faz desde que se esqueça
que é homem à espera que cresça
a árvore que dá dinheiro.

Alimentam-no do ar proibido
de um sonho que não é dele
não tem mais que esse frasco de vidro
para fechar a estrela do norte.
E só o seu corpo abolido
lhe pertence na hora da morte.

Natália Correia





Yo soy


Yo no camino derecho,
siempre camino torcido.
El que camina derecho
conoce un solo camino.

Yo no soy lo que parezco ,
sino lo que mí alma sueña
y si me caigo en los pozos ,
es por andar mirando estrellas.

Soy el esclavo más libre!
Esclavo de lo que amo!
La libertad y la justicia
saben bien de quiénes hablo.

No me importa tu dinero ,
prefiero mí independencia...
si por tener un sombrero
hay que alquilar la cabeza.

Ni el oro de tu bolsillo,
ni la seda de tu pañuelo,
ni tu plata , ni tus latas
son el camino del cielo...

Tienes demasiado peso
para poder alzar vuelo.

Facundo Cabral





sábado, 25 de abril de 2026

Trova do vento que passa

https://www.youtube.com/watch?v=McRqaiBmIT4&list=RDMcRqaiBmIT4&start_radio=1

                      Para António Portugal

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio - é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi meu poema na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(Portugal à flor das águas)
vi minha trova florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.


Manuel Alegre





Sempre


 

Foram dias, foram anos


Foram dias foram anos a esperar por um só dia.
Alegrias. Desenganos. Foi o tempo que doía
Com seus riscos e seus danos. Foi a noite e foi o dia
Na esperança de um só dia.

Foram batalhas perdidas. Foram derrotas vitórias.
Foi a vida (foram vidas). Foi a História (foram histórias)
Mil encontros despedidas. Foram vidas (foi a vida)
Por um só dia vivida.

Foi o tempo que passava como nunca se passasse.
E uma flauta que cantava como se a noite rasgasse
Toda a vida e uma palavra: liberdade que vivia
Na esperança de um só dia.

Musa minha vem dizer o que nunca então disse
Esse morrer de viver por um dia em que se visse
um só dia e então morrer. Musa minha que tecias
um só dia dos teus dias.

Vem dizer o puro exemplo dos que nunca se cansaram
musa minha onde contemplo os dias que se passaram
sem nunca passar o tempo. Nesse tempo em que daria
a vida por um só dia.

Já muitas águas correram já muitos rios secaram
batalhas que se perderam batalhas que se ganharam.
Só os dias morreram em que era tão curta a vida
Por um só dia vivida.

E as quatros estações rolaram com seus ritmos e seus ritos.
Ventos do Norte levaram festas jogos brincos ditos.
E as chamas não se apagaram. Que na ideia a lenha ardia
Toda a vida por um dia.

Fogos-fátuos cinza fria. Musa minha que cantavas
A canção que se vestia com bandeiras nas palavras:
Armas que o tempo tecia. Minha vida toda a vida
Por um só dia vivida.

Manuel Alegre





sábado, 28 de março de 2026

Dois dedos de testa

 https://www.youtube.com/watch?v=0xXprHT_tt0&list=RD0xXprHT_tt0&start_radio=1

Ser mulher aqui é ser mulher de quem?
Ter um papel assinado para ser alguém
Ser decente, quem se apresenta à mãe
Mesmo que o filho não valha a mulher que tem
Ser mulher aqui é ser submissa
Rezar o terço, dizer sim e ir à missa
Não ter opinião, ser bonita
Ser tão nova quanto o estado e andar bem vestida

E eu que tenho a liberdade debaixo dos braços
Tenho brasas a arder debaixo dos pés
Pus uma pedra sobre o meu passado.
E se o que eu sou ofende quem és...

[Deixa-me abanar a cabeça, põe mais vinho nesta mesa
Que eu, eu quero esquecer
Quero ser o centro da festa, o assunto da conversa
Eu, eu quero aparecer
Deixa-me abanar a cabeça, põe mais vinho nesta mesa
Que eu, que eu hoje faço um brinde
Quero ser dona da festa, tenho dois dedos de testa
Sou a voz e nem sou boa ouvinte]

     "Foi deixada, abandonada
     É carente e mal amada
     Está tão triste e tão sozinha
     Pobrezinha
     Sem apelido e sem marido
     E de quem será o filho?
     Está cansada, ela trabalha
     Coitadinha, coitadinha"

Carolina Deslandes





Bucólica


A vida é feita de nadas;
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;
De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;
De poeira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma Mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga




quinta-feira, 26 de março de 2026

Livros

https://www.youtube.com/watch?v=mXxkhJf-b4M&list=RDmXxkhJf-b4M&start_radio=1

Tropeçavas nos astros, desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
E, sem dúvida, sobretudo o verso
É o que pode lançar mundos no mundo

Tropeçavas nos astros, desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los para fora das janelas
Talvez isso nos livre de lançarmo-nos
Ou o que é muito pior por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras

Tropeçavas nos astros, desastrada
Mas para mim foste a estrela entre as estrelas


Caetano Veloso




quarta-feira, 18 de março de 2026

Amostra sem valor


Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

António Gedeão




A paixão


Saímos do amor
como de uma catástrofe aérea
Havíamos perdido a roupa
os papéis
a mim faltava-me um dente
e a ti a noção do tempo
Era um ano longo como um século
ou um século curto como um dia?
Pelos móveis
pela casa
desperdícios quebrados:
copos, fotos, livros desfolhados
Éramos os sobreviventes
de um derrube
de um vulcão
das águas arrebatadas
e despedimo-nos com a vaga sensação
de haver sobrevivido
embora não soubéssemos para quê.

Cristina Peri Rossi




Te libero de mí


Te libero de mí, de mis males,
de mi mal genio, de los domingos
por la tarde en donde nunca puedo más,
del odio a mis cumpleaños,
de no saber cómo hacer
para regalarte algo que no pierdas.

Te libero de mi desengaño,
de tu karma, de mis novedades,
de la contradicción que represento.

Te libero de mis llamadas
que te saben a autocompasión,
de mis enredos, de mi cabello suelto,
largo, sin peinar.

Te libero de mi consciencia,
del desconcierto a fin de mes,
de la caída, de la llegada,
de mi huida inevitable.

Te dejo libre para que me dejes,
para que me veas de lejos
y me quieras, menos.

fin

Mario Benedetti




sábado, 21 de fevereiro de 2026

Santiago, Cabo Verde, Fevereiro de 2026

 


O que faremos nós das pequenas pedras


O que faremos nós das pequenas pedras
que a vida por achá-las inúteis
devolve insolúveis ao coração?

António Amaral Tavares




O país da chuva e da distância


Todo o esplendor termina, as grandes vozes emudecem,
o verde-mar das pradarias seca,
mas aquilo que mais profundo e íntimo foi
perdurará na memória inapelável,
ali de onde o poema impreciso vigia
esperando que regressem os deuses do desterro.

Pois também a memória tem suas avenidas
de luzes silenciosas e esquinas recolhidas,
sua margem passando pelo fio do sonho.
O esquecimento cansa-se de chamar à sua porta.

O saguão é quem vela enquanto a casa dorme. 
Houve um na infância, a recordação
colocou certa vez ali sua magnólia figo.
E na cancela eu desenhei uma tarde
o país da chuva e da distância.

Raúl González Tuñón




A todos los que, alguna vez


A todos los que, alguna vez,
Me abandonaron:
Dios los ilumine con la luz
Que cubre lo perdido.
(Nunca he sido feliz…)
Nunca he sido feliz
Pero, al menos,
He perdido
Varias veces
La felicidad.

Luis Hernández Camarero




A ilha


Fiz-me ao mar com lua cheia
A esse mar de ruas e cafés
Com vagas de olhos a rolar
Que não me viam no convés
Tão cegas no seu vogar
E assim fui na monção
Perdido na imensidão

Deparei com uma ilha
Uma pequena maravilha
Meia submersa
Resistindo à toada
Deu-me dois dedos de conversa
Já cheia de andar calada

Tinha um olhar acanhado
E uma blusa azul-grená
Com o botão desapertado
E por dentro tão ousado
Um peito sem soutien

Ancoramos num rochedo
Sacudimos o sal e o medo
Falamos de música e cinema
Lia Fernando Pessoa
E às vezes também fazia um poema
E no cabelo vi-lhe conchas
E na boca uma pérola a brilhar

Despiu o olhar de defesa
Pôs-me o mapa sobre a mesa
Deu-me conta dessas ilhas
Arquipélagos ao luar
Com os areais estendidos
Contra a cegueira do mar
Esperando veleiros perdidos
Esperando veleiros perdidos

Carlos Tê




terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A divisão do frango

Alguns ficaram com as minhas partes
piores. Isto é como a divisão do frango
em família numerosa. Faltam coxas para todos.
Isto é como a aprendizagem da generosidade:
o peito ou o pescoço ou as asas. Lá em casa,
fazíamos de conta que preferíamos outra coisa
e dávamos as partes melhores aos irmãos.
Sei que eu e os meus irmãos tivemos sempre
uns dos outros as partes melhores.
Parece-me justo e valioso. Parece-me informação
digna de CV ou de Wikipédia. Isto devia dar empregos.
Isto devia ser o primeiro dado de uma biografia:
«dava a parte melhor do frango aos seus irmãos».

E depois apaixonamo-nos. Complica-se a divisão do frango
quando há coxas para todos: para dois.
Difícil haver tanta coxa. Difícil não ser preciso dividir.
Difícil ver cada vez menos os irmãos, que provariam à mesa
sermos nós ainda a criança generosa. E que se houvesse
menos frango ou mais gente, ofereceríamos a parte melhor.

Alguns ficaram com as minhas partes piores.
Os que não amei, não gostavam de me ver comer frango.
Comiam ossos e deram cabo de mim. Ainda me telefonam.
Os que amei iam comigo à churrasqueira, pediam molho picante
à parte (sempre tive medo de perder o ar) e batatas fritas na hora.
Um dia, nunca mais me quiseram ver.

Apenas pelos meus irmãos soube dividir-me.
Apenas eles ficaram para lá da refeição.

Não quero com isto justificar-me. Entendo.
Parti bem o frango mas parti sempre mal.

Só que às vezes lamento ninguém ter esperado
que eu crescesse. É natural.
Em tempo de aviários, ninguém espera isso de um frango.

Filipa Leal





A ponte

Para cruzá-la ou não cruzá-la
eis a ponte

na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um pais

trago comigo oferendas desusadas
entre elas um guarda-chuva de umbigo de madeira
um livro com os pânicos em branco
e um violão que não sei abraçar

venho com as faces da insónia
os lenços do mar e das pazes
os tímidos cartazes da dor
as liturgias do beijo e da sombra

nunca trouxe tanta coisa
nunca vim com tão pouco

eis a ponte
para cruzá-la ou não cruzá-la
e eu vou cruzar
sem prevenções

na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um país

Mario Benedetti




Amor de tarde

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.
.
É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.
.
É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer “e aí?” e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.

Mario Benedetti




Permanencia

Se fue, pero que forma de quedarse.

Miguel d'Ors




Déjame explicarme

Déjame explicarme: 
equivocarme siempre ha estado entre mis planes.
Era contigo con quién no contaba. 

Pablo Benavente




[ainda hoje]

nunca digas «para sempre»
meu amor
como disseste uma vez
já nem te lembras

a manhã entrava
pela janela do quarto

estávamos tão próximos das despedidas
e a luz era tanta
que ainda hoje
nos cega.

José Carlos Barros




Não preciso que todos os dias sejam mansos

Não preciso que todos os dias sejam
mansos. O meu corpo não é de seda.
Acordo muitas vezes com pele de árvore
e já provei o sangue das tempestades.
Quase nunca sou brisa. Mais vezes sou
vento nascido dos trovões. Caminho descalça
na lama. Tenho braços de furacão. Não sou
frágil. Não sou do meu tamanho.
Eu sou a menina que cresceu. Que decorou
gritos de guerra. Que salta muros e cercas.
A menina que aprendeu e agora sabe
matar dragões e centopeias.

Vírginia do Carmo




segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Sobre o caminho

Nada

nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra

Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença

Não coleciones dejetos o teu destino és tu

Despe-te
não há outro caminho

Eugénio de Andrade



Sabes lá o que custa guardar a memória

Sabes lá o que custa guardar a memória.
decompor o riso e esquecer. Empacotar
toda a alegria numa caixa frágil de cartão,
levá-la nas mãos trémulas até à cave mais
escura. Descer as escadas velhas, falhar
um degrau e cair. Ver a coragem a saltar
do corpo, na queda. Ouvir o som que faz
o riso, ao partir-se. Procurar os pedaços,
perder os olhos abertos no chão,
perder o chão, perder o andar.
Sabes lá o que custa.

Virgínia do Carmo



«Pode ser Pepsi?»

                              a Bernardo Pinto de Almeida Gosto de ver hieróglifos nas pegadas das gaivotas. Não gosto que os feriados calhe...