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sábado, 5 de fevereiro de 2022

O brinco que perdeste

Marta, em quantas vidas não nos encontrámos, mas aconteceu-nos algures o milagre, o encontro, as palavras. Esta a parte que quero lembrar de quanto não nos foi dado, roubado, falhado, ou simplesmente sumido entre ruas e esquinas onde virámos ou não virámos, mas sempre deixámos para trás a rua por onde não fomos. E no entanto, é bem capaz de ser verdade que os mais belos encontros são os que não vivemos, os únicos que afinal a vida pobre não alcança. Marta, desculpa, não queria estragar com palavras um silêncio tão limpo, mas estás a ver, não sou capaz. Preciso demasiado das palavras, procuro demasiado nas palavras a vida que delas afasto, consumado idiota, a correr para lá de mim numa ânsia ridícula e sem sentido, rumo a nada, rumo ao fim. Marta, aceita-o, se puderes, na sua imperfeição e no seu erro, na mão que te estende e nada quer. Este é, embora não pareça, um poema feliz para guardares na estante dos teus livros tristes.

Jorge Roque


domingo, 19 de abril de 2020

Viola partida

Conheces a angústia, amigo, o modo como vagarosamente se infiltra até doer nos ossos como se o frio pela janela aberta do coração vazio. Conheces essa viagem que desemboca em portos de países longínquos, cidades de pedra sob céus sem fim, ruas de solidão e morte que o sol nunca visita. E mesmo ao lado, os tubos recurvos da loucura, o labirinto transparente por onde te moves sem peso, longe, muito longe, dos pés. Quando dói demais endoidece-se, é uma forma de desviar a dor para olhos que não nos pertencem. Como se num filme em que fossemos o lado de fora e por dentro a dor a cansar. Não sei se sabes do que falo (receio mesmo tê-lo complicado). Tão pouco sei se existes (o mais que recebi de ti foi um silêncio em que acreditei que me ouvisses). Escrevo dirigindo-me a ti. Escrevo depondo nas tuas mãos o último grão de vida que resta nesta terra triste.

Jorge Roque


Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto

https://www.youtube.com/watch?v=iUUfDb_NxHg&list=RDX97ktzIjIr4&index=7   Eu que me comovo Por tudo e por nada Deixei-te parada Na be...