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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
 
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
 
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
 
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
 
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
 
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
 
Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?
 
Ferreira Gullar

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Ano Novo

Meia-noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.
Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça
nada ali indica
que um ano novo começa.
E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.
Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta).

Ferreira Gullar

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Cantiga para não morrer

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.
 
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
 
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
 
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Ferreira Gullar