domingo, 30 de março de 2025

Regras da casa

Nunca omitir os infortúnios
e contar cada história até
ao fim. Tapar com panos
os espelhos; facas debaixo
da mesa. Consolar a coruja e
trinchar o morcego.
Nunca perder a raiva, aconteça
o que acontecer. Deixar entrar
quem quer que seja.

Hans-Ulrich Treichel


Os dias de Job

Às vezes rezo

sou um cego e vejo
as palavras o reunir
das sombras

às vezes nada digo
estendo as mãos como uma concha
puro sinal da alma
a porta

queria que batesses
tomasses um por um os meus refúgios
estes dedos
inquietos na ignorância
do fogo

pois que tempo abrigará
os anjos
e que dia erguerá todo o sol
que há nas dunas

por isso
às vezes chove quando rezo
às vezes quase neva
sobre o pão

José Tolentino de Mendonça


Quem és tu, de novo?


Quando a janela se fecha e se transforma num ovo
Ou se desfaz em estilhaços de céu azul e magenta
E o meu olhar tem razões que o coração não frequenta
Por favor diz-me quem és tu, de novo?

Quando o teu cheiro me leva as esquinas do vislumbre
E toda a verdade em ti é coisa incerta e tão vasta
Quem sou eu pra negar que a tua presença me arrasta?
Quem és tu, na imensidão do deslumbre?

As redes são passageiras, as arquiteturas da fuga
De toda a água que corre, de todo o vento que passa
Quando uma teia se rasga ergo à Lua a minha taça
E vejo nascer no espelho mais uma ruga

Quando o teto se escancara e se confunde com a Lua
A apontar-me o caminho melhor do que qualquer estrela
Ninguém me faz duvidar que foste sempre a mais bela
Por favor, diz-me que és alguém, de novo?

Quando a janela se fecha e se transforma num ovo
Ou se desfaz em estilhaços de céu azul e magenta
E o meu olhar tem razões que o coração não frequenta
Por favor diz-me quem?

És tu, 
de novo

Jorge Palma


What remained

One by one, things went on holiday.
Cars grew attached to the tarmac,
shopping centres turned empty.

The days of the week dissolved.
We lived on in months
that faded into seasons.

The garden turned a jungle
of crops we’d planted
when everything was still open.

Sometimes we were scared, but you’re not
scared a lifetime. We made space, step
after step we walked backwards to the sidelines.

What remained: a smaller world to inhabit,
a sky full of birds and stars, the bliss
of those who exist in order to exist.

Ingmar Heytze


Primeira meditação

És a única árvore no mundo que recusa crescer em direção à luz. Em vez disso enterras-te com raízes cada vez mais profundas, camada de terra após camada, tempo passado, rumo ao calor, e calculas já estar a meio caminho.
Depressa deixas de sentir as toupeiras, minhocas ou raízes de outros seres, tetra-cego das cavernas na sua noite infinita. O frio é cada vez maior.
Não sabes se consegues crescer a distância necessária para encontrares o magma. Estás só, mas a caminho.

Ingmar Heytze


Uma nota de agradecimento

Há muito que devo
àqueles que eu não amo.
O alívio em aceitar
eles estão mais próximos de outro.
Alegria por não ser
o lobo para suas ovelhas.
A minha paz esteja com eles
pois com eles eu sou livre,
e isso, o amor não pode dar,
nem sei como tirá-lo.
Eu não espero por eles
da janela à porta.
Quase tão paciente
como um mostrador solar,
eu entendo
o que o amor não entende.
Eu perdoo
o que o amor nunca teria perdoado.
Entre encontro e carta
nenhuma eternidade passa,
apenas alguns dias ou semanas.
As minhas viagens com eles dão sempre certo.
Ouvem-se concertos.
As catedrais são visitadas.
As paisagens são distintas.
E quando sete rios e montanhas
fiquem entre nós,
eles são rios e montanhas
bem conhecidos de qualquer mapa.
É graças a eles
que eu vivo em três dimensões,
num espaço não lírico e não retórico,
com um horizonte mutável, portanto real.
Eles nem sabem
quanto carregam nas suas mãos vazias.
‘Eu não lhes devo nada ‘,
teria dito o amor
neste tópico aberto.

Wislawa Szymborska


Depois do amor

(...)

“Miguel, eu lembro-me de ti
depois do sol e do pó,
antes da própria lua,
túmulo de um sonho de amor.”

Amor: afasta o meu ser
das suas primeiras ruínas,
e construindo-me, dita
uma verdade como um sopro.

Depois do amor, a terra.
Depois da terra, tudo.

Miguel Hernández


Regras do esquecimento

Não esqueças sobretudo a armadura
da noite,
a aspereza das estrelas
quando os olhos são recentes
e a gravitação é como um poder
sucinto nas mãos.

Não esqueças sobretudo como os cereais
lavram os campos estafados, destilam
prodígio pelos sulcos da memória,
oferecem-te uma vida maior
em troca do sal
das pálpebras.

Não esqueças sobretudo de olhar devagar.

Vasco Gato


terça-feira, 18 de março de 2025

Esta obscuridade salubre

Olha peço-te não venhas assim quando eu estava tão quieta
sentada no jardim e até com óculos
não venhas peço-te
não venhas melindroso e sorrindo
com a cabeça inclinada como um particípio
não venhas
Eu estava já me aproximando
quase tocava a recorrência das coisas
nesse momento eu olhava para o chão e via mesmo cada
pequena pedra saudável
eu estava tão quieta sentada no jardim
Respirava
sentia as veias ligeiramente activas
mas tão ligeiramente
tudo corria fundo em sua sumidade
meus braços tinham apenas o seu peso
sem outras asas
Quando tu vieste sorrindo melindroso e tão salubre
de repente o jardim é a dificuldade essencial da minha
botânica
a minha indústria difícil
o fim que a alma lograda obtém dos corpos
Corro agora por minha alucinação dirigível
minhas tarefas são histriónicas
Eu estava ali tão quieta
estava até com óculos
e tu inclinavas-te como um simulacro
Intui, peço-te
esta obscuridade salubre
esta consternação despenhada
tropeçando pela alma recorrente silva

Ana Hatherly


Eu sei que foste eterna numa hora


Eu sei que foste eterna numa hora
Eu sei que foste o nada num só dia
Lá fora passa a vida sem demora
Janela duma noite tão vazia

Palavras que ficaram por dizer
Silêncios que trocámos sem olhar
Tristezas são angústia de perder
Desejos que matámos por amar

Andámos à procura, sem saber
De coisas que inventámos por acaso
Perdemo-nos os dois, quase sem querer
Num tempo que julgámos sem atraso

É estranho
Dizes tu do meu caminho
Fugaz... Diria eu... Foi sempre o nosso
Mas sabes, meu amor, quero estar sozinho
Amar-te uma vez mais eu já não posso

Duarte


sábado, 15 de março de 2025

Explicação da noite

Sobre a água estarei solto de caminhos
Dos que vierem nenhum barco é para ti

Não deixes a candeia acesa
Dorme: basta-me essa luz

Daniel Faria


Let me go

When I come to the end of the road
And the sun has set for me
I want no rites in a gloom filled room
Why cry for a soul set free?

Miss me a little, but not for long
And not with your head bowed low
Remember the love that once we shared
Miss me, but let me go.

For this is a journey we all must take
And each must go alone.
It's all part of the master plan
A step on the road to home.

When you are lonely and sick at heart
Go to the friends we know.
Laugh at all the things we used to do
Miss me, but let me go.

Christina Rossetti


À espera do fim


Vou andando por ai
Sobrevivendo à bebedeira e ao comprimido
Vou dizendo sim à engrenagem
E ando muito deprimido
É difícil encontrar quem o não esteja
Quando o sistema nos consome e aleija
Trincamos sempre o caroço
Mas já não saboreamos a cereja

Já houve tempos em que eu
Tinha tudo não tendo quase nada
Quando dormia ao relento
Ouvindo o vento beijar a geada
Fazia o meu manjar com pão e uva
Fazia o meu caminho ao sol ou à chuva
Ao encontro da mão miúda
Que me assentava como uma luva

Se ainda me queres vender
Se ainda me queres negociar
Isso já pouco me interessa
Perdemos o gozo de viver
Eu a obedecer e tu a mandar
Os dois na mesma triste peça
Os dois à espera do fim

Tu tens fortuna e eu não
Podes comer salmão e eu só peixe miúdo
Mas temos em comum o facto de ambos vermos
A vida por um canudo
Invertemos a ordem dos fatores
Pusemos números à frente de amores
E vemos sempre a preto e branco o programa
Que afinal é a cores

Jorge Palma


quinta-feira, 13 de março de 2025

ABC

Jamais saberei
o que A. pensava de mim.
Se B. acabou por me perdoar.
Por que razão fingia C. que tudo estava bem.
Qual a quota-parte de D. no silêncio de E.
O que esperava F. se acaso algo esperava.
Por que fingia G. sabendo de tudo.
O que tinha H. a esconder.
O que queria I. acrescentar.
Se o facto de eu estar por perto,
teve algum significado
para J. e K. e para o resto do alfabeto.

Wislawa Szymborska


Filme — anos sessenta

Este homem adulto. Este homem na terra.
Dez bilhões de células nervosas.
Cinco litros de sangue para trezentos gramas de coração.
Esse objeto se desenvolveu por três bilhões de anos.

No princípio apareceu na forma de um garotinho.
O garotinho colocava a cabeça nos joelhos da titia.
Onde está esse garotinho. Onde, esses joelhos.
O garotinho cresceu. Ah, já não é a mesma coisa.
Estes espelhos são cruéis e lisos como asfalto.
Ontem atropelou um gato. Esta sim foi uma ideia.
O gato foi libertado do inferno desta época.
A moça no automóvel lhe lançou um olhar.
Não, não tinha aqueles joelhos que ele buscava.
Na verdade, queria era respirar fundo deitado na areia.
Ele e o mundo nada têm em comum.
Sente-se a asa quebrada de um jarro,
embora o jarro não saiba disso e continue a levar a água.
É extraordinário. Alguém ainda labuta.
Esta casa está construída. Esta maçaneta, esculpida.
Esta árvore, enxertada. Este circo vai fazer seu show.
O todo almeja se manter inteiro embora esteja em pedaços.
Como cola, pesadas e espessas sunt lacrimae rerum.
Mas tudo isso ao fundo e só ao lado.
Nele há uma escuridão terrível e na escuridão um garotinho.

Deus do humor, faz dele alguma coisa sem falta.
Deus do humor, faz dele alguma coisa por fim.

Wislawa Szymborska


Regras da casa

Nunca omitir os infortúnios e contar cada história até ao fim. Tapar com panos os espelhos; facas debaixo da mesa. Consolar a coruja e trinc...