sábado, 5 de fevereiro de 2022

O brinco que perdeste

Marta, em quantas vidas não nos encontrámos, mas aconteceu-nos algures o milagre, o encontro, as palavras. Esta a parte que quero lembrar de quanto não nos foi dado, roubado, falhado, ou simplesmente sumido entre ruas e esquinas onde virámos ou não virámos, mas sempre deixámos para trás a rua por onde não fomos. E no entanto, é bem capaz de ser verdade que os mais belos encontros são os que não vivemos, os únicos que afinal a vida pobre não alcança. Marta, desculpa, não queria estragar com palavras um silêncio tão limpo, mas estás a ver, não sou capaz. Preciso demasiado das palavras, procuro demasiado nas palavras a vida que delas afasto, consumado idiota, a correr para lá de mim numa ânsia ridícula e sem sentido, rumo a nada, rumo ao fim. Marta, aceita-o, se puderes, na sua imperfeição e no seu erro, na mão que te estende e nada quer. Este é, embora não pareça, um poema feliz para guardares na estante dos teus livros tristes.

Jorge Roque


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