sábado, 21 de fevereiro de 2026

A ilha


Fiz-me ao mar com lua cheia
A esse mar de ruas e cafés
Com vagas de olhos a rolar
Que não me viam no convés
Tão cegas no seu vogar
E assim fui na monção
Perdido na imensidão

Deparei com uma ilha
Uma pequena maravilha
Meia submersa
Resistindo à toada
Deu-me dois dedos de conversa
Já cheia de andar calada

Tinha um olhar acanhado
E uma blusa azul-grená
Com o botão desapertado
E por dentro tão ousado
Um peito sem soutien

Ancoramos num rochedo
Sacudimos o sal e o medo
Falamos de música e cinema
Lia Fernando Pessoa
E às vezes também fazia um poema
E no cabelo vi-lhe conchas
E na boca uma pérola a brilhar

Despiu o olhar de defesa
Pôs-me o mapa sobre a mesa
Deu-me conta dessas ilhas
Arquipélagos ao luar
Com os areais estendidos
Contra a cegueira do mar
Esperando veleiros perdidos
Esperando veleiros perdidos

Carlos Tê




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Santiago, Cabo Verde, Fevereiro de 2026