sexta-feira, 13 de maio de 2022

Silenciosamente aproximo-me do poema

silenciosamente aproximo-me do poema

circundo-o duma palavra faço nela
uma incisão deliberada

e exponho a ferida ao ar sem protegê-la
para que infecte e frutifique
de resina ainda com gosto a papel húmido

o poema cresce ramifica-se
comovidamente do cerne para a casca
inteiro liso adstringente sinuoso
mas

todo o poema é perfeitamente impuro.

Vasco Graça Moura


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