domingo, 7 de junho de 2026

Quinta canção (Lisboa, meu amor)


Lisboa tem um vestido azul feito de mar e guerra. E cheira a laranjas maduras. Quando as gaivotas trazem no bico os primeiros pedaços de sol para acender o dia, Lisboa deixa correr os cabelos pelo Tejo e o povo pelas ruas. À mesma hora, a coragem agita no sangue duas grandes asas inquietas. Por todas as janelas destruídas, já o mar entrou, derrubando acácias, cantando hinos de espuma. E porque toda a coragem é necessária, toda a esperança é legítima.


Chamar-te a ti, Lisboa, camarada,
e depois, eu sei lá, enlouquecer.
Que a loucura é quase um grão de nada
e tu tens um nome de mulher.

Ou dizer que és a minha namorada.
Devagar. Não vá alguém saber
que fizemos amor de madrugada
e tu trazes um filho por nascer.

Se eu inventar de noite a liberdade
de poder beijar-te os olhos e morrer,
no teu ventre não há fado nem saudade
mas apenas os filhos que eu fizer.

E pode ser que eu guarde a tempestade
de ter que aqui ficar. E então dizer
que sobre a minha boca ninguém há-de
pôr rosas de silêncio, se eu quiser.

Joaquim Pessoa





Está bem. Façamos de conta

Está bem. Façamos de conta
que não nos conhecemos.
Como se não tivéssemos brincado
juntos na areia
E no entanto sabes que me ajudaste
a escavar um buraco
até tocarmos
a água no fundo.
A água do mar.

Goliarda Sapienza




Agradecimento póstumo

                                      
                                      A A., por me ter deixado só
                                      quando eu mais precisava de mim mesma.

muitas estações desfilaram indiferentes
ao seu próprio avesso
e à minha perplexidade
trouxeram-me clareza, alguns copos a mais em certas noites
e manhãs de irremediável lucidez, cabelos brancos
primeiro um, o batedor, depois batalhões incontroláveis deles

como hoje estou com tempo
olho para trás quase 30 anos
exatamente
para onde permaneces soerguido, quase te falhava a voz
numa cama tão velha quanto o destino:
- o que queres de mim?

nada, meu amor de outra vida, que a costa fica longe
pelo menos a 30 anos de braçadas e desvios de rota
e nada disto importa no final das contas
nem a longa viagem de perdas
de sentido obscuro
nem que ergamos a taça às cicatrizes silenciosas
mas não mudas.

Violeta Runa




Quinta canção (Lisboa, meu amor)

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