domingo, 17 de maio de 2026

Fria claridade


No meio da claridade
Daquele tão triste dia
Grande, grande era a cidade
E ninguém me conhecia

Rostos, carros, movimentos
Traziam noite e segredo
Só eu me sentia lento
E avançava quase a medo

Só a saudade da pátria
Longínqua, me acompanhava
Quisera voltar à serra
E ouvir o vento e a água brava

Quisera voltar ao bosque
Onde sei que sou lembrado
Voltar às leiras de Afife
E ouvir a canção tão mansa
Do pastor que guarda o gado

Mas nas ruas sinuosas
Ainda o rumor crescera
E eu contemplava assombrado
Minhas mãos ontem com rosas
Minhas mãos hoje de cera

Então passaram por mim
Uns olhos lindos, depois
Julguei sonhar, vendo enfim
Dois olhos, como há só dois

Em todos os meus sentidos
Tive presságios de adeus
E os olhos logo perdidos
Afastaram-se dos meus

Acordei, a claridade
Fez-se maior e mais fria
Grande, grande era a cidade
E ninguém me conhecia

Pedro Homem de Mello





O que será


O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda a alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

Chico Buarque





Os nossos heróis da adolescência mudam tanto


Os nossos heróis da adolescência mudam tanto.
Enchem-se de caracóis e de suplícios. Morre-lhes o gato,
prostituem-se, não chegam a ser advogados (ainda bem).

O pior é que alguns deixam de ler e de beber.
Aumentam o ego e a barriga, não sabem estar sozinhos.
Já nem sequer tentam parecer interessantes.
Vão ao supermercado comprar ovos e massa
e, se passam na praia ao fim da tarde, não se descalçam,
para não encherem os pés, e os carros, de areia.

Filipa Leal





[...]


Hoje, também os carros dançam. As casas movem-se levemente. 
E eu – que mudei de casa e de roupa, de cidade e de cama, de
palavras... Eu, que mudei de música e de carro, de saudade, de
quarto... Eu – que mudei de computador e de rua, de eternidade
e de paisagem, de abraço e de clima... Eu – que mudei de língua
e de lágrimas, de deus e de caderno, de crenças e de céu... Eu –
que mudei de lume, que mudei de medos... Eu – que mudei de
planos, de lençóis, de secretária... Eu – que mudei de óculos e
de rumo, de amigos, de champô, de rituais e de supermercado...
Eu – que mudei de tudo que em quase nada mudou, mudei de
dentro de mim para dentro de ti, meu amor.

Filipa Leal






Vésperas portuguesas


o dia corre de poente para nascente, 
a chuva é um lençol tenso sobre os velhos que separam
as lembranças, com palavras que não chegam
a dizer: esquecem os subterfúgios do tempo
e avançam cambaleantes pelas grandes fissuras
entregues ao despovoamento alucinante

no interior dos carros, os crimes
são ligeiras confidências

Rui Nunes





[tanto tempo casta]


tanto tempo casta
tanto tempo apenas
admirada, nunca
amada, agora
presenças transparentes
me atendem
de dia impaciente
conto as horas
que impedem tua chegada

virás como sempre
trajando o manto
do homem invisível
de noite vens velar
o pranto previsível
promessas leves
que a dor é breve
preliminar do amor
que me atravessa

no reverso da língua
que lambe a mão
e sorve o leite
surde o azeite
que queima o dorso
do corpo ocre

o atirador
rechaça a corda
do arco terso
a flecha
corta.

Margarida Vale do Gato





Siringe - III


Ferramentas sujas, grelhas justas,
justificações – não queria justificar
nada, apenas dizer: vejo. Ou então: sei.
A face exterior do lado de dentro
não se distingue da
face interior do lado de fora;
fina membrana, a mesma vibração.

Pensava nesse órgão tradutor usado pelas aves: siringe,
o lado de dentro do lado de fora do pássaro,
que é obviamente este onde estou,
estamos. O lado que não canta senão mimeografado.

Siringe: equacionar a questão de saber se as aves
são canoras apenas porque sem elas o mundo
não cantaria. A beleza do mundo precisa de aves,
banda-sonora? Um arco de violino no rebordo da mesa
faz vibrar ínfimos grânulos sobre a superfície lisa, e
eles desenham padrões geométricos, arrumam o espaço.
Nós, não. Muitas vezes, não. Gritos e mais gritos na desordem
dos vidros partidos, tiros, granadas, explosões.

Schön, shine, a mesma origem; brilho, beleza.

Os ralos não têm siringe. O que escondem
de semelhante sob as asas? Quando cantam
a luz fica mais prateada,
mesmo se são duas ordens distintas de acontecimentos.

Começava a entender um pouco melhor?
Um ano depois, a sete mil metros de altitude, lia estas notas.
O som das turbinas do avião mantinha-nos no ar,
vibrava. A esta altura já nenhuma ave canta; e todavia, imitamos assim
a siringe das aves, as asas dos ralos, desajeitadamente, roucamente.
A seringa recolhe, transporta, inocula. Matéria
contra matéria na deslocação do ar; nós, que não somos daqui,
que talvez tenhamos vindo mesmo só para isto:
o espanto e a tradução.

Rosa Maria Martelo





Cuidado, Espanha, com a tua própria Espanha!


Cuidado, Espanha, com a tua própria Espanha!
Cuidado com a foice sem o martelo,
cuidado com o martelo sem a foice!
Cuidado com a vítima que se faz de vítima,
com o carrasco que se faz de vítima,
e com o indiferente que se faz de vítima!
Cuidado com aquele que, antes de o galo cantar,
te negará três vezes,
e com aquele que, depois, te negou três vezes!
Cuidado com os crânios sem tíbias,
e com as tíbias sem crânios!
Cuidado com os novos poderosos!
Guarda-te daquele que come os teus cadáveres,
e daquele que devora vivos os teus mortos!
Cuidado com os cem por cento leais!
Cuidado com o céu deste lado do ar,
e cuidado com o ar para além do céu!
Cuidado com aqueles que te amam!
Cuidado com os teus heróis!
Cuidado com os teus mortos!
Cuidado com a República!
Cuidado com o futuro!
César Vallejo





Yo te deseo


Yo te deseo la locura, el valor,
los anhelos, la impaciencia.
Te deseo la fortuna de los amores
y el delirio de la soledad.
Te deseo el gusto por los cometas,
por el agua y los hombres.
Te deseo la inteligencia y el ingenio.
Te deseo una mirada curiosa,
una nariz con memoria,
una boca que sonría
y maldiga con precisión divina,
unas piernas que nunca envejezcan,
un llanto que te devuelva la entereza.
Te deseo el sentido del tiempo
que tienen las estrellas,
el temple de las hormigas,
la duda de los templos.
Te deseo fe en los augurios,
en la voz de los muertos,
en la boca de los aventureros,
en la paz de los hombres que olvidan su destino,
en la fuerza de tus recuerdos
y en el futuro como promesa
donde cabe todo lo que aún no te sucede…

Ángeles Mastretta





Fria claridade

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