domingo, 7 de junho de 2026

Quinta canção (Lisboa, meu amor)


Lisboa tem um vestido azul feito de mar e guerra. E cheira a laranjas maduras. Quando as gaivotas trazem no bico os primeiros pedaços de sol para acender o dia, Lisboa deixa correr os cabelos pelo Tejo e o povo pelas ruas. À mesma hora, a coragem agita no sangue duas grandes asas inquietas. Por todas as janelas destruídas, já o mar entrou, derrubando acácias, cantando hinos de espuma. E porque toda a coragem é necessária, toda a esperança é legítima.


Chamar-te a ti, Lisboa, camarada,
e depois, eu sei lá, enlouquecer.
Que a loucura é quase um grão de nada
e tu tens um nome de mulher.

Ou dizer que és a minha namorada.
Devagar. Não vá alguém saber
que fizemos amor de madrugada
e tu trazes um filho por nascer.

Se eu inventar de noite a liberdade
de poder beijar-te os olhos e morrer,
no teu ventre não há fado nem saudade
mas apenas os filhos que eu fizer.

E pode ser que eu guarde a tempestade
de ter que aqui ficar. E então dizer
que sobre a minha boca ninguém há-de
pôr rosas de silêncio, se eu quiser.

Joaquim Pessoa





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