domingo, 17 de maio de 2026

Siringe - III


Ferramentas sujas, grelhas justas,
justificações – não queria justificar
nada, apenas dizer: vejo. Ou então: sei.
A face exterior do lado de dentro
não se distingue da
face interior do lado de fora;
fina membrana, a mesma vibração.

Pensava nesse órgão tradutor usado pelas aves: siringe,
o lado de dentro do lado de fora do pássaro,
que é obviamente este onde estou,
estamos. O lado que não canta senão mimeografado.

Siringe: equacionar a questão de saber se as aves
são canoras apenas porque sem elas o mundo
não cantaria. A beleza do mundo precisa de aves,
banda-sonora? Um arco de violino no rebordo da mesa
faz vibrar ínfimos grânulos sobre a superfície lisa, e
eles desenham padrões geométricos, arrumam o espaço.
Nós, não. Muitas vezes, não. Gritos e mais gritos na desordem
dos vidros partidos, tiros, granadas, explosões.

Schön, shine, a mesma origem; brilho, beleza.

Os ralos não têm siringe. O que escondem
de semelhante sob as asas? Quando cantam
a luz fica mais prateada,
mesmo se são duas ordens distintas de acontecimentos.

Começava a entender um pouco melhor?
Um ano depois, a sete mil metros de altitude, lia estas notas.
O som das turbinas do avião mantinha-nos no ar,
vibrava. A esta altura já nenhuma ave canta; e todavia, imitamos assim
a siringe das aves, as asas dos ralos, desajeitadamente, roucamente.
A seringa recolhe, transporta, inocula. Matéria
contra matéria na deslocação do ar; nós, que não somos daqui,
que talvez tenhamos vindo mesmo só para isto:
o espanto e a tradução.

Rosa Maria Martelo





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