domingo, 7 de junho de 2026

Agradecimento póstumo

                                      
                                      A A., por me ter deixado só
                                      quando eu mais precisava de mim mesma.

muitas estações desfilaram indiferentes
ao seu próprio avesso
e à minha perplexidade
trouxeram-me clareza, alguns copos a mais em certas noites
e manhãs de irremediável lucidez, cabelos brancos
primeiro um, o batedor, depois batalhões incontroláveis deles

como hoje estou com tempo
olho para trás quase 30 anos
exatamente
para onde permaneces soerguido, quase te falhava a voz
numa cama tão velha quanto o destino:
- o que queres de mim?

nada, meu amor de outra vida, que a costa fica longe
pelo menos a 30 anos de braçadas e desvios de rota
e nada disto importa no final das contas
nem a longa viagem de perdas
de sentido obscuro
nem que ergamos a taça às cicatrizes silenciosas
mas não mudas.

Violeta Runa




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