quinta-feira, 23 de julho de 2026

Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto

https://www.youtube.com/watch?v=iUUfDb_NxHg&list=RDX97ktzIjIr4&index=7 

Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada


António Lobo Antunes





Se alguém pudesse olhar


Se alguém pudesse olhar para nós lá do alto, veria que o mundo está repleto de pessoas que correm apressadas, transpiradas e muito cansadas, e que atrás delas correm, atrasadas, as suas almas perdidas, incapazes de acompanhar o passo dos donos. Daqui resulta uma grande confusão; as almas perdem a cabeça e as pessoas deixam de ter coração. As almas sabem que perderam o dono, mas as pessoas, frequentemente, não se dão conta de que perderam a alma.

Olga Tokarczuk





O amor tudo mata quando morre


Eu morro dia a dia, sabendo-o, sentindo-o,
com a morte do amor em mim.
Esvaiu-se, ensandeceu, partiu,
espécie de sol sepultado por mãos ímpias,
numa cratera de lua, algures,
ou na tristeza de um retrato emudecido
pela ausência de vozes em redor.
Sem ele, a casa ficou deserta
de risos, acenos e afectos, de tudo,
as mãos ficaram ásperas, secas,
a pele do rosto gretada, fria,
e o sangue tornou-se lento e espesso,
incapaz de dar vida às pequenas folhas
orvalhadas da imaginação das noites.
A erva cresce em redor de mim,
os limões ficaram ressequidos sobre
a toalha bordada, num canto da mesa.
O amor tudo mata quando morre,
detendo no seu movimento elementar,
a máquina que ilumina o coração do dia.

José Jorge Letria






[...]


E posto que viver me é excelente
cada vez gosto mais de menos gente.

Agostinho da Silva





Uma falha no programa

https://www.youtube.com/watch?v=X97ktzIjIr4&list=RDX97ktzIjIr4&start_radio=1

Estou à espera
mais uma vez
de ser gentilmente votada
ao meu lugar de amante
intensa, grata e gozada

e é melhor
que fique assim,
nem me queixo, inconveniente
sou para todo o protocolo
e além disso algo demente;

tenha embora certo interesse
falta-me um tudo-nada, charme
aliás,
agradeço que entre portas
me deixem dedicar mil vezes,
no meio dos uivos e lodos,
a minha vulnerabilidade-
- mas se por acaso, só desta vez,

for mesmo da minha cabeça
e acontecer de outro modo,
que hei-de agradar-vos a todos.

tenha embora certo interesse
falta-me um tudo-nada, charme

tenha embora certo interesse
falta-me um tudo-nada, charme
charme e desprendimento

João Aguardela 





Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto

https://www.youtube.com/watch?v=iUUfDb_NxHg&list=RDX97ktzIjIr4&index=7   Eu que me comovo Por tudo e por nada Deixei-te parada Na be...