terça-feira, 8 de setembro de 2026

[...]


Obrigada. Quero que alguém me dê as malditas graças.

Obrigada pela solidariedade, pelos orgasmos fingidos, pelos ouvidos atentos. Por terem olhado e escutado sem dar sinais de cansaço. Quero que alguém me dê as malditas graças pela minha presença.

Pelas cartas de recomendação e pelas excelentes notas no meu relatório. As malditas graças pela minha paciência e pela minha impaciência.

Pelo meu olhar sobre os pinheiros que ladeiam a pequena estrada para Quercianella. Pela minha memória infalível quando se trata de escutar o vento e o mar.

Obrigada por eu me ter adaptado ao amor, ao álcool, ao rock, à traição, à solidão das duas da manhã, à família estúpida e obtusa, a estar presente quando alguém precisa de mim.

Quero que alguém me dê as malditas graças por ter sustentado um chulo durante dois anos. Por ter tomado conta dos filhos da minha melhor amiga. Por ter sido complacente com um louco sem remédio. E dura com um burocrata perdido.

Miyó Vestrini

Blue


Verei novos rostos
Verei novos dias
Serei esquecido
Terei remembranças
Verei sair o sol quando sai o sol
Verei cair a chuva quando chove
Andarei a esmo
De um lado a outro
Aborrecerei meio mundo
Contando a mesma história
Sentar-me-ei para escrever uma carta
Que não me interessa enviar
Ou para olhar as crianças
Nos parques de diversão.

Sempre chegarei à mesma ponte
Para olhar o mesmo rio
Assistirei a filmes tolos
Abrirei os braços para abraçar o vazio
Beberei vinho se me oferecem vinho
Beberei água se me oferecem água
E enganar-me-ei dizendo:
“Virão novos rostos
Virão novos dias”.

Jorge Teillier





[...]

Obrigada. Quero que alguém me dê as malditas graças. Obrigada pela solidariedade, pelos orgasmos fingidos, pelos ouvidos atentos. Por terem ...