quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Amigo

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill

Brinquedo



Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel
Um cordel
E um menino de bibe.

O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão;
E a estrela ia subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.

Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel.
E o menino, ao vê-la assim, sorriu
E cortou-lhe o cordel.

Miguel Torga

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Lago de Sanabria, Galiza


Os argonautas


https://www.youtube.com/watch?v=CwppKJjYReA


O barco, meu coração não aguenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia, o marco, meu coração
O porto, não
Navegar é preciso
Viver não é preciso
Navegar é preciso
Viver não é preciso
O barco, noite no céu tão bonito
Sorriso solto perdido
Horizonte, madrugada
O riso, o arco, da madrugada
O porto, nada
Navegar é preciso
Viver não é preciso
Navegar é preciso
Viver não é preciso
O barco, o automóvel brilhante
O trilho solto, o barulho
Do meu dente em tua veia
O sangue, o charco, barulho lento
O porto, silêncio
Navegar é preciso
Viver não é preciso
Navegar é preciso
Viver não é preciso
Navegar é preciso
Viver não é preciso
Navegar é preciso
Viver não é preciso
Navegar é preciso
Viver . . .

Caetano Veloso

sábado, 5 de janeiro de 2019


Achado



Fui à floresta,

Em si volvido.

Na distração

Tive sentido.


No escuro eu vi

Uma flor bela,

Com olhos ternos,

Como uma estrela.


Eu fui cortá-la;

Pôs-se a falar:

“Se eu for cortada,

Não vou murchar?”


Rente às raízes

Fundo cavei,

E ao meu jardim

A transplantei.


Em lugar calmo

Pus a flor linda;

Sempre há um renovo,

Floresce ainda.


Goethe

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019


Coincidir


https://www.youtube.com/watch?v=b3GyAtcoogc&list=RDb3GyAtcoogc&start_radio=1

Poema de um funcionário cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só

António Ramos Rosa


quarta-feira, 2 de janeiro de 2019


História do sul

Anoiteceu, recordo-me, era um cão pequeno e branco, numa
cidade do sul, com limoeiros ainda e o frémito da sombra ao
fundo dos pátios. Um cão, há muitos anos, via-o aproximar-se
de longe, certamente tinha um destino, magro destino de cão,
já se sabe, contudo destino. Na noite deserta, um osso na
boca, ele ia à sua vida, talvez uma cadela o esperasse num
daqueles vícolos que desaguavam nas trevas do porto, mas
também ele me viu, não era difícil, na rua deserta só eu
aguardava, e quase alvoroçado aproximou-se, parou na minha
frente, deitou fora o osso, ergueu-se nas patas traseiras e os
olhos diziam que, a partir de então, osso, cadela, destino,
tudo isso era eu. Inclinei-me para uma festa, disse-lhe também
da minha ternura, daquela ferida breve acabada de abrir, mas o
meu destino era ainda mais precário, mal chegara não tardaria
a partir, só quase o tempo de respirar a cal da sombra. Dei
alguns passos, sabia que me seguia, parei, parou, voltei a
caminhar, voltou a seguir-me, de novo o acariciei, ali estavam
aqueles olhos molhados, eram por assim dizer os olhos de minha
mãe, outra vez lhe falei, lhe pedi perdão por não poder
levá-lo, por não poder ficar, viajar com amigos não era andar
pelo mundo de sacola ao ombro, devia compreender. Não, ele não
compreendia, não podia mesmo entender razões assim, a terra
era o que havia de mais deserto, do amor não ficava senão um
pequeno fio de sangue, menos ainda, a baba da lesma na relva,
e de repente uma campainha retiniu, ficámos rodeados de gente,
o deserto aumentou, ele continuava na minha frente, aqueles
olhos onde subiam as águas mais fundas, como esquecê-los? Os
amigos ali estavam, 
deram-se logo conta, os inteligentes, daquele enleio, deram
também razões, o cãozito tinha certamente dono, via-se bem que
não era vadio embora lhe faltasse raça, quisesse eu não
faltariam cães, por toda a parte havia milhares bem mais
bonitos, e depois, as fronteiras, tanto trabalho por um cão
vulgaríssimo, como vês não entendem, nenhum deles viu nos teus
olhos a raiz do orvalho, entraram no carro, fiz-lhe ainda uma
festa, da janela de trás via-o no espaço que o automóvel
deixara, farejava o chão inquieto, depois levantou a cabeça
desorientado, não percebia como um sopro me levara, impossível
amor, meu filho, passarei o resto da vida a embalar-te, as
pessoas continuavam a dispersar, as últimas luzes do cinema
apagavam-se, a rua escureceu, não tardaria a ficar deserta.

Eugénio de Andrade 

terça-feira, 1 de janeiro de 2019


Poema

https://www.youtube.com/watch?v=QyB6xSt52AQ

A vida

A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;

a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória;

a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas.

Nuno Júdice

A um jovem poeta

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

Manuel António Pina


Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto

https://www.youtube.com/watch?v=iUUfDb_NxHg&list=RDX97ktzIjIr4&index=7   Eu que me comovo Por tudo e por nada Deixei-te parada Na be...