domingo, 27 de setembro de 2020

Houvesse um sinal a conduzir-nos

Houvesse um sinal a conduzir-nos. 

E unicamente ao movimento de crescer nos guiasse. Termos das árvores
A incomparável paciência de procurar o alto
A verde bondade de permanecer
E orientar os pássaros.

Daniel Faria

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Neredva, o verde impossível do rio

 








Elogio da mulher invisível

uma mulher pensa veste-se mal
parece uma empregada doméstica
perdeu toda a dignidade no dia-a-dia
não podia ter escolhido roupas mais feias, desirmanadas, repulsivas
vem defender a tese como se estivesse em roupão
o corpo disforme esquecido
talvez não muito limpo
mas talvez isto seja só uma ideia
por não se depilar e deixar o cabelo crescer
sem nunca lhe dar forma
esta mulher estuda pensa
acolhe os nossos filhos
acarinha-os quando não estamos
ensina-lhes o que nós sabemos
mas não somos capazes de ensinar
chamam-lhe primária
continuam a chamar-lhe primária
mas ela sabe os segredos
truques que nos escapam
nós pais e mães
nós os das profissões mais ou menos liberais
que nos libertaram da escravatura e nos voltaram
a lançar nela de formas mais perversas
nós aparentemente sensatos, requintados
cada vez mais desorbitados
ignoramos o que ela faz todos os dias
como abraça trinta crianças de uma vez só
no nevoeiro mais matinal e no coração da canícula
estrada fora pelos dias dentro
entra na cabeça e no peito dos nossos filhos
e deixa a eterna semente da confiança
como o animal prenhe
do futuro indefinido mais que perfeito descomposto

Rosa Oliveira

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Primeiro encontro

Nunca percebi
o silêncio obstinado das
praias da marginal
pelas noites de inverno,
a indiferença das coisas
em que um dia fomos grandes.
Não exijo agora que te molhes,
- a água está tão fria - ou que me
dês uma das tuas mãos. Gostava,
por uma vez, que este mar
sossegasse connosco dentro.
Rema, temos tempo.
Ainda que seja sempre tarde
para irmos mais longe,
podemos seguir
o balanço que nos separa. 

Frederico Pedreira

sábado, 25 de julho de 2020

Both sides, now

https://www.youtube.com/watch?v=7cBf0olE9Yc

Ao fim

Ao fim são muito poucas as palavras
que nos doem a sério e muito poucas
as que conseguem alegrar a alma.
São também muito poucas as pessoas
que tocam nosso coração e menos
ainda as que o tocam muito tempo.
E ao fim são pouquíssimas as coisas
que em nossa vida a sério nos importam:
poder amar alguém, sermos amados
e não morrer depois dos nossos filhos.

Amalia Bautista
(Trad.: Joaquim Manuel Magalhães)


Los heraldos negros

Hay golpes en la vida, tan fuertes… ¡Yo no sé! Golpes como del odio de Dios; como si ante ellos, la resaca de todo lo sufrido se empozara en...