quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Gita

https://www.youtube.com/watch?v=Yh-s_Jxx79s&list=RDYh-s_Jxx79s&start_radio=1

Às vezes você me pergunta
Por que é que eu sou tão calada
Não falo de amor quase nada
Nem fico sorrindo ao seu lado

Você pensa em mim a toda hora
Me come, me cospe, me deixa
Talvez você não entenda
Mas hoje eu vou lhe mostrar

Eu sou a a luz das estrelas
Eu sou a cor do luar
Eu sou as coisas da vida
Eu sou o medo de amar

Eu sou o medo do fraco
A força da imaginação
O bluff do jogador
Eu sou, eu fui, eu vou

Eu sou o seu sacrifício
A placa de contramão
O sangue no olhar do vampiro
E as juras de maldição

Eu sou a vela que acende
Eu sou a luz que se apaga
Eu sou a beira do abismo
Eu sou o tudo e o nada

Por que você me pergunta?
Perguntas não vão lhe mostrar
Que eu sou feita da terra
Do fogo, da água e do ar

Você me tem todo o dia
Mas não sabe se é bom ou ruim
Saiba que eu estou em você
Mas você não está em mim

Eu sou o amargo da língua
A mãe, o pai e o avô
O filho que ainda não veio
O início, o fim e o meio
O início, o fim e o meio

Raul Seixas





Esta gente


Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis
Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre
Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome
E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada
Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo.

Sophia de Mello Breyner





Em Creta, com o Minotauro


Em Creta, com o Minotauro,
sem versos e sem vida,
sem pátrias e sem espírito,
sem nada, nem ninguém,
que não o dedo sujo,
hei-de tomar em paz o meu café.

Jorge de Sena





Passeio dos prodígios


Vamos lá contar as armas
Tu e eu, de braço dado
Nesta estrada meio deserta
Não sabemos quanto tempo
As tréguas vão durar

Há vitórias e derrotas
Apontadas em silêncio
No diário imaginário
Onde empilhamos as razões para lutar
Repreendo os meus fantasmas
Ao virar de cada esquina
Por espantarem a inocência
Quantas vezes te odiei
Com medo de te amar

Vejo o fundo da garrafa
Acendo mais outro cigarro
Tudo serve de cinzeiro
Quando os deuses brincam
É para magoar

Vamos enganar o tempo
Saltar para o primeiro comboio
Que arrancar da mais próxima estação
Para quê fazer projetos
Quando sai tudo ao contrário?
Pode ser que por milagre
Troquemos as voltas aos deuses
Entre o caos e o conflito
A vontade e a desordem
Não podemos ver ao longe
E corremos sempre o risco
De ir longe demais
Somos meros transeuntes
No passeio dos prodígios
Somos só sobreviventes
Com carimbos falsos nas credenciais

Jorge Palma





Querida Litty


Há já meses
com inusitada frequência
que o carteiro me não deixa cartas tuas.
Será amnésia do homem
ou talvez as empilhe
num recanto limpo
do seu quarto de solteiro
solteirão
e algum dia mas trará
fita rosa
todas juntas
como um banquete
para o esquecido faminto
que pode imaginar-se
desde agora
uma clara catarata
de ternuras e recordações.

Juan Carlos Onetti





terça-feira, 20 de outubro de 2026

Estive pensando de novo no amor


Há os que vivem para recebê-lo
e os que vivem para dá-lo.

Claro que existem aqueles para quem ambas as coisas são verdade,
mas nunca na mesma medida.

Aqueles que o têm para dar são
como cardeais na neve. Tão fáceis
e lindamente iluminados. Alguns
são como coelhos. Difíceis de ver
exceto para aqueles que deles fariam presa:
toda aquela suavidade e tremor e sangue.

Aqueles que o querem
não podem ser saciados. Com olhos de águia e tais garras,
qualquer criatura peluda serve. É tão fácil
arrancar um coração quando ele pulsa tão forte.

Eu vagueio pelo inverno.
Eu sei o que sou.

Vievee Francis





Ainda assim


O amor, se é amor, nunca se vai.
Ele fica incrustado em nós,
como veios de ouro na Terra,
esperando a luz,
esperando ser atingido.

Alice Walker





Lisboa ainda


Lisboa não tem beijos nem abraços
não tem risos nem esplanadas
não tem passos
nem raparigas e rapazes de mãos dadas
tem praças cheias de ninguém
ainda tem sol mas não tem
nem gaivota de Amália nem canoa
sem restaurantes sem bares nem cinemas
ainda é fado ainda é poemas
fechada dentro de si mesma ainda é Lisboa
cidade aberta
ainda é Lisboa de Pessoa alegre e triste
e em cada rua deserta
ainda resiste.

Manuel Alegre (2020)





Possibilidades


Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievski.
Prefiro-me a gostar das pessoas
que a amar a humanidade.
Prefiro para uma emergência ter agulha e linhas.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro falar de outras coisas com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não os escrever.
Prefiro no amor os pequenos aniversários
para festejar todos os dias.
Prefiro os moralistas que nada me prometem.
Prefiro uma bondade algo prudente
a outra confiante em demasia.
Prefiro a terra à civil.
Prefiro os países conquistados
aos conquistadores.
Prefiro guardar as minhas reservas.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro as fábulas de Grimm às primeiras páginas dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro gavetas.
Prefiro muitas coisas que não menciono aqui
a outras também aqui não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
aos dispostos em bicha para o número.
Prefiro o tempo de insetos ao de estrelas.
Prefiro fazer figas.
Prefiro não perguntar se ainda demora e quando é.
Prefiro tomar em consideração a própria possibilidade
de ter a existência o seu sentido.

Wislawa Szymborska





sexta-feira, 16 de outubro de 2026

O peso dos outros


Ao Homem tanto faz a natureza
se anda abismado, com outros
às cavalitas
quando chega à meta
já os perdeu a todos
e depois é que olha o céu
e sente a chuva, tão nova

ao Homem tanto faz o verbo
se se multiplica pelos actos
quando dá por ele, já são muitos
e depois a terra abala-se
e é a cabeça que inventa deus

a mim, tanto me faz o Homem
sou espuma na onda
desfaço-me mas volto
e só existo de vez em quando.


Cláudia R. Sampaio





Que força é essa?

https://www.youtube.com/watch?v=CW-435ahx2w&list=RDCW-435ahx2w&start_radio=1

[regressamos sempre aos básicos]

Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Construir as cidades pr'òs outros
Carregar pedras, desperdiçar
Muita força p'ra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força p'ra pouco dinheiro

Que força é essa? Que força é essa
Que trazes nos braços?
Que só te serve para obedecer
Que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que te põe de bem com outros
E de mal contigo

Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?

Não me digas que não me compr'endes
Quando os dias se tornam azedos
Não me digas que nunca sentiste
Uma força a crescer-te nos dedos
E uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr'endes

Sérgio Godinho





Tenho a pedir-vos que não reutilizeis mais nada


Tenho a pedir-vos que não reutilizeis mais nada.
Este edifício junto à praia, deixai-o
entregue à ruína,
às folhas do milho,
ao ar salgado.

Que as crianças possam tropeçar nas lajes soltas
e no átrio ecoe, como uma pedreira,
o desejo de muitas mãos.

Deixai dormir as mariposas dentro de lâmpadas partidas
e as formigas engrossarem pelos cantos
como sal.

Não inventeis mais nada,
nem formas eloquentes de evitar que o bronze oxide.
Aceitai o suor do tempo.

Que algumas coisas apodreçam.
Que os elefantes atravessem a planície.
Que as veias rebentem
do esforço de permanecer em pé.

E que nem tudo se sustente como a rosa
se sustenta de florir.

Deixai, deixai os vários pisos incomunicáveis,
o desvão ser cortejado pelo giz dos aviões,
que a lua pouse ali aberto o crânio,
que lhe bata o sol.

Ainda são precisos os templos
onde o pó seja gentil
e incensado
como os pés pela caruma dos pinhais.

Andreia C. Faria





sábado, 3 de outubro de 2026

Los amigos


En el tabaco, en el café, en el vino,
al borde de la noche se levantan
como esas voces que a lo lejos cantan
sin que se sepa qué, por el camino.

Livianamente hermanos del destino,
dióscuros, sombras pálidas, me espantan
las moscas de los hábitos, me aguantan
que siga a flote entre tanto remolino.

Los muertos hablan más pero al oído,
y los vivos son mano tibia y techo,
suma de lo ganado y lo perdido.

Así un día en la barca de la sombra,
de tanta ausencia abrigará mi pecho
esta antigua ternura que los nombra.

Julio Cortázar





Dos nossos medos


Dos nossos medos
nascem as nossas coragens,
e nas nossas dúvidas,
vivem as nossas certezas.

Os sonhos anunciam
outra realidade possível,
e os delírios outra razão.

Nos descaminhos
esperam-nos surpresas,
porque é preciso perder-se
para voltar a encontrar-se.

Eduardo Galeano





Desencontrários


Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.

Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.

Paulo Leminski





Ir y quedarse


Ir y quedarse, y con quedar partirse,
partir sin alma, y ir con alma ajena,
oír la dulce voz de una sirena
y no poder del árbol desasirse;
arder como la vela y consumirse,
haciendo torres sobre tierna arena;
caer de un cielo, y ser demonio en pena,
y de serlo jamás arrepentirse;

hablar entre las mudas soledades,
pedir prestada sobre fe paciencia,
y lo que es temporal llamar eterno;

creer sospechas y negar verdades,
es lo que llaman en el mundo ausencia,
fuego en el alma, y en la vida infierno.

Lope de Vega