Dissesse eu, de outra maneira,
que as cerejeiras tardam mil luas a florir,
haveria palavras doces que o dissessem?
Toda a tarde te esperei e não vieste.
A semana, o mês, o inverno, o meu aniversário,
as últimas chuvas antes do verão,
e não vieste.
Conto os teus passos ausentes no pensamento
para entreter a espera.
Há uma pedra solta no passeio.
Um vento súbito atravessa as copas do arvoredo.
Saberás que te espero fielmente,
um chá quente sobre a mesa posta
e uma lâmina gasta no lugar do coração?
Como os anónimos do vício permaneço
vigilante:
só hoje, esperei por ti e não vieste.
Violeta Runa
sábado, 24 de outubro de 2020
Dissesse eu, de outra maneira
quarta-feira, 14 de outubro de 2020
A recusa do amor
Não temos uma arma apontada à cabeça,dizias-me.
Mas era impossível que não visses,
impossível. Eu ao teu lado com aquela dor
no pescoço, imóvel, cuidadosa, o cano frio
na minha testa, a vida a estoirar-me
a qualquer momento. Era impossível que não visses
o revólver que levava sempre comigo. Por isso dormia
virada para o outro lado, não era por me dar mais jeito
aquele lado, era por me dar mais jeito
não morrer quando nos víamos,
era para dormir contigo só mais esta vez,
sempre só mais esta vez,
sempre com o meu amor a virar-se de costas,
sempre com o teu amor apontado à cabeça.
impossível. Eu ao teu lado com aquela dor
no pescoço, imóvel, cuidadosa, o cano frio
na minha testa, a vida a estoirar-me
a qualquer momento. Era impossível que não visses
o revólver que levava sempre comigo. Por isso dormia
virada para o outro lado, não era por me dar mais jeito
aquele lado, era por me dar mais jeito
não morrer quando nos víamos,
era para dormir contigo só mais esta vez,
sempre só mais esta vez,
sempre com o meu amor a virar-se de costas,
sempre com o teu amor apontado à cabeça.
Filipa Leal
segunda-feira, 12 de outubro de 2020
domingo, 11 de outubro de 2020
E é nisto que se resume o sofrimento
E é nisto que se resume
o sofrimento:
cai a flor, — e deixa o perfume
no vento!
cai a flor, — e deixa o perfume
no vento!
Cecília Meireles
sábado, 10 de outubro de 2020
sexta-feira, 9 de outubro de 2020
Eu não sei o que se passa contigo...
(eu não sei o que se passa contigo que fecha
e abre; só alguma coisa dentro de mim compreende
a voz dos teus olhos é mais profunda do que todas as rosas)
E. E. Cummings
e abre; só alguma coisa dentro de mim compreende
a voz dos teus olhos é mais profunda do que todas as rosas)
E. E. Cummings
quinta-feira, 8 de outubro de 2020
O poder de Circe
Nunca transformei ninguém em porco.
Algumas pessoas são porcos; faço-os
parecerem-se a porcos.
Estou farta do vosso mundo
que permite que o exterior disfarce o interior.
Os teus homens não eram maus;
uma vida indisciplinada
fez-lhes isso. Como porcos,
sob o meu cuidado
e das minhas ajudantes,
tornaram-se mais dóceis.
Depois reverti o encanto,
mostrando-te a minha boa vontade
e o meu poder. Eu vi
que poderíamos ser aqui felizes,
como o são os homens e as mulheres
de exigências simples. Ao mesmo tempo,
previ a tua partida,
os teus homens, com a minha ajuda, sujeitando
o mar ruidoso e sobressaltado. Pensas
que algumas lágrimas me perturbam? Meu amigo,
toda a feiticeira tem
um coração pragmático; ninguém
vê o essencial que não possa
enfrentar os limites. Se apenas te quisesse ter
podia ter-te aprisionado.
quarta-feira, 7 de outubro de 2020
Os milagres acontecem
Os milagres acontecem a horas incertas
e nunca estou em casa
quando o carteiro passa.
Hoje, abriu a primeira flor
e eu disse é um sinal.
Olho em volta: estou só
trago esta sombra comigo.
e nunca estou em casa
quando o carteiro passa.
Hoje, abriu a primeira flor
e eu disse é um sinal.
Olho em volta: estou só
trago esta sombra comigo.
Ana Paula Inácio
segunda-feira, 5 de outubro de 2020
Mar
I
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.
Sophia de Mello Breyner Andresen
domingo, 4 de outubro de 2020
sábado, 3 de outubro de 2020
Um anjo diz que sim, o outro diz que não.
Um anjo diz que sim, o outro diz que não.
O poeta diz talvez. E tu que dizes? Tu que vives
a vida de fora para dentro, comandado
por estímulos que entram maquilhados no teu sono e no teu sonho
e que acordam contigo sem alguma vez terem despertado.
Sofres porque habitas um palácio imaginário.
Sofres porque sabes como te chamas mas ignoras quem és.
Sofres porque fechas as janelas da tua casa e as janelas do teu espírito
mas a vida não pára de preparar surpresas
para quando abrires a porta na manhã seguinte
Sofres porque cada orgasmo é uma festa maravilhosa que te estremece apenas o corpo.
Sofres porque cada satisfação tua foi atingida com um imenso rol de profundas insatisfações.
Sofres porque quase sempre o que tu desejas não é o que tu queres.
Sofres porque não vais além do coração e porque o coração não vai além de ti. E porque ambos se atrapalham.
Sofres porque tens medo e porque tens medo de ter medo.
Sofres porque tens dificuldade em olhar para a frente, partir de ti para um outro tu,
e porque olhar fixamente para trás te pode transformar numa estátua de sal.
Sofres porque a tua honestidade é desonesta e a tua consciência é um juiz
que tu mesmo te encarregas de corromper. Sofres
porque a tua infâmia pode preencher a primeira página
e porque a primeira página nunca fala de ti nem que seja para mostrar a tua infâmia.
Sofres porque é grande a sensação de ameaça
e porque enorme é o tédio e porque é fundo o desespero.
Sofres porque as razões porque és feliz são as mesmas razões da tua infelicidade.
Sofres porque é amarga a vida e doce a ilusão e insonsa a esperança.
Sofres porque sabes tudo isto e desconheces tudo isto
e porque o conhecimento das coisas e o desconhecimento das coisas
são sempre a primeira e a última das razões
para invocares o teu inútil sofrimento.
O poeta diz talvez. E tu que dizes? Tu que vives
a vida de fora para dentro, comandado
por estímulos que entram maquilhados no teu sono e no teu sonho
e que acordam contigo sem alguma vez terem despertado.
Sofres porque habitas um palácio imaginário.
Sofres porque sabes como te chamas mas ignoras quem és.
Sofres porque fechas as janelas da tua casa e as janelas do teu espírito
mas a vida não pára de preparar surpresas
para quando abrires a porta na manhã seguinte
Sofres porque cada orgasmo é uma festa maravilhosa que te estremece apenas o corpo.
Sofres porque cada satisfação tua foi atingida com um imenso rol de profundas insatisfações.
Sofres porque quase sempre o que tu desejas não é o que tu queres.
Sofres porque não vais além do coração e porque o coração não vai além de ti. E porque ambos se atrapalham.
Sofres porque tens medo e porque tens medo de ter medo.
Sofres porque tens dificuldade em olhar para a frente, partir de ti para um outro tu,
e porque olhar fixamente para trás te pode transformar numa estátua de sal.
Sofres porque a tua honestidade é desonesta e a tua consciência é um juiz
que tu mesmo te encarregas de corromper. Sofres
porque a tua infâmia pode preencher a primeira página
e porque a primeira página nunca fala de ti nem que seja para mostrar a tua infâmia.
Sofres porque é grande a sensação de ameaça
e porque enorme é o tédio e porque é fundo o desespero.
Sofres porque as razões porque és feliz são as mesmas razões da tua infelicidade.
Sofres porque é amarga a vida e doce a ilusão e insonsa a esperança.
Sofres porque sabes tudo isto e desconheces tudo isto
e porque o conhecimento das coisas e o desconhecimento das coisas
são sempre a primeira e a última das razões
para invocares o teu inútil sofrimento.
Joaquim Pessoa
sexta-feira, 2 de outubro de 2020
quarta-feira, 30 de setembro de 2020
Elementário
O verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em falar do que não pode ser dito a quem
se quer dizer
ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em não falar do que pode ser dito a quem
se quer dizer
ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em não falar do que não pode ser dito a quem
se quer dizer
ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em falar do que pode ser dito a quem
se não quer dizer
isto, claro, partindo do princípio
de que há um sentido das palavras,
verdadeiro, um poema e um
a quem se queira dizer.
é que o poema consiste
em falar do que não pode ser dito a quem
se quer dizer
ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em não falar do que pode ser dito a quem
se quer dizer
ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em não falar do que não pode ser dito a quem
se quer dizer
ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em falar do que pode ser dito a quem
se não quer dizer
isto, claro, partindo do princípio
de que há um sentido das palavras,
verdadeiro, um poema e um
a quem se queira dizer.
Daniel Jonas
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