sexta-feira, 30 de julho de 2021

A ilha


Livra-me da fome que me consome, deste frio;
Livra-me do mal desse animal que é este cio;
Livra-me do fado e se puderes abençoado
Leva-me a mim a voar pelo ar!

Como se houvesse um encanto, uma estranha magia,
O sol lentamente flutua nas margens do dia.
Despe o meu corpo corsário, seca-me a veia maruja,
Morde-me o peito aos ais, das brigas, dos punhais,

Da ilha dos ladrões, quem sai?

https://www.youtube.com/watch?v=KF_S7-iWCwo



A minha morte, não ta dou

A minha morte, não ta dou.
De resto, tiveste tudo
- a flor, a sesta, o lusco-fusco,
a inquietação do dia 8,
as órbitas das mães, das mãos,
das curiosas palavras de não dizer nadinha.
Tudo tiveste: estás contente?

Feliz assim por teres tudo o que sou?
Feliz por perderes tudo o que sei?

Só não te dou o que não serei.
Não, a minha morte, não ta dou.

Pedro Tamen

domingo, 25 de julho de 2021

Abril de sim, Abril de não


Eu vi Abril por fora e Abril por dentro
vi o Abril que foi e o Abril de agora
eu vi Abril em festa e Abril lamento
Abril como quem ri como quem chora.

Eu vi chorar Abril e Abril partir
vi o Abril de sim e Abril de não
Abril que já não é Abril por vir
e como tudo o mais contradição.

Vi o Abril que ganha e Abril que perde
Abril que foi Abril e o que não foi
eu vi Abril de ser e de não ser.

Abril de Abril vestido (Abril tão verde)
Abril de Abril despido (Abril que dói)
Abril já feito. E ainda por fazer.

Manuel Alegre


Há sempre alguém que diz não. Pá.


Ora é tão vingativo
Ora é tão paciente
Amanhã é comedor
Hoje abstinente
Mentiroso, alcoviteiro
Doce e verdadeiro

Uma vez conquistador
Outra vez vencido
Amanhã é navegante
Hoje é desvalido
Sensual, aventureiro
Doido e bandoleiro

Somos capitães
Somos Albuquerques
Nós somos leões
Dos lobos dos mares
E na verdade o que vos dói
É que não queremos ser heróis

https://www.youtube.com/watch?v=eU-dvl8pSc8


sexta-feira, 23 de julho de 2021

Don dinero


Nace en las Indias honrado,
donde el mundo le acompaña,
viene a morir a España
y es en Génova enterrado;
y pues quien le trae al lado
es hermoso, aunque sea fiero,
poderoso caballero
es don, don, dodon, din, don es
don dinero.

https://www.youtube.com/watch?v=q7EAK9xSCqs


Não digas nada!

Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender —
Tudo metade
De sentir e de ver…
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada…
Mas ali fui feliz
Não digas nada.

Fernando Pessoa

segunda-feira, 5 de julho de 2021

De que me serviu


De que me serviu ir correr mundo,

arrastar, de cidade em cidade, um amor

que pesava mais do que mil malas; mostrar

a mil homens o teu nome escrito em mil

alfabetos e uma estampa do teu rosto

que eu julgava feliz? De que me serviu


recusar esses mil homens, e os outros mil

que fizeram de tudo para parar-me, mil

vezes me penteando as pregas do vestido

cansado de viagens, ou dizendo o seu nome

tão bonito em mil línguas que eu nunca

entenderia? Porque era apenas atrás de ti


que eu corria o mundo, era com a tua voz

nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo

do amor de cidade em cidade, o teu nome

nos meus lábios de cidade em cidade, o teu

rosto nos meus olhos durante toda a viagem,


mas tu partias sempre na véspera de eu chegar.



Maria do Rosário Pedreira



quarta-feira, 30 de junho de 2021

Lisboa, meu amor


Chamar-te a ti, Lisboa, camarada

E depois, eu sei lá, enlouquecer

https://www.youtube.com/watch?v=fjhfuun0S-M



Que nome te dar?


Que nome te dar? Tu és única. Tu és todas. Ou talvez nenhuma. Eu sou tu. Tu és eu. A outra metade de mim. A parte de ti que em mim ficou. A parte de mim que foi contigo. Ninguém me foi tão próximo. Ninguém me escapou tanto. 
Como foi que constantemente nos encontrámos e nos perdemos?
Esta é a história. Uma história sem história. Uma história só isto.


Manuel Alegre



sábado, 19 de junho de 2021

Enigma


Guarda.

Guarda o segredo

Do meu amor.

Que nem por sombras possam suspeitar

Que todos os poemas que escrevi

Os soubeste primeiro.


Que fiz da tua imagem

A imagem do mundo

E que nunca te vi ao natural,

Musa irreal,

Mulher incerta da minha certeza,

Bela como a beleza.


Miguel Torga



sexta-feira, 18 de junho de 2021

Como um rio


Uma frase começa antes da frase

como um rio começa antes dum rio.

Uma frase começa onde tropeço

no amor que antes de ser já era adeus

começa antes do fogo e antes do frio

como princípio inverso ou fim do avesso

como começo antes do começo

ou talvez como Deus antes de Deus.


Manuel Alegre


sexta-feira, 4 de junho de 2021

A estrela

Eu caminhei na noite
Entre silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava.

Grandes perigos na noite me apareceram
Da minha estrela julguei que eu a julgara
Verdadeira sendo ela só reflexo
De uma cidade a néon enfeitada.

A minha solidão me pareceu coroa
Sinal de perfeição em minha fronte
Mas vi quando no vento me humilhava
Que a coroa que eu levava era de um ferro
Tão pesado que toda me dobrava.

Do frio das montanhas eu pensei
«Minha pureza me cerca e me rodeia»
Porém meu pensamento apodreceu
E a pureza das coisas cintilava
E eu vi que a limpidez não era eu.

E a fraqueza da carne e a miragem do espírito
Em monstruosa voz se transformaram
Disse às pedras do monte que falassem
Mas elas como pedras se calaram
Sozinha me vi delirante e perdida
E uma estrela serena me espantava.

E eu caminhei na noite minha sombra
De desmedidos gestos me cercava
Silêncio e medo
Nos confins desolados caminhavam
Então eu vi chegar ao meu encontro
Aqueles que uma estrela iluminava.

E assim eles disseram: «Vem connosco
Se também vens seguindo aquela estrela»
Então soube que a estrela que eu seguia
Era real e não imaginada.

Grandes noites redondas nos cercaram
Grandes brumas miragens nos mostraram
Grandes silêncios de ecos vagabundos
Em direcções distantes nos chamaram
E a sombra dos três homens sobre a terra
Ao lado dos meus passos caminhava
E eu espantada vi que aquela estrela
Para a cidade dos homens nos guiava.

E a estrela do céu parou em cima
de uma rua sem cor e sem beleza
Onde a luz tinha a cor que tem a cinza
Longe do verde azul da natureza.

Ali não vi as coisas que eu amava
Nem o brilho do sol nem o da água.

Ao lado do hospital e da prisão
Entre o agiota e o templo profanado
Onde a rua é mais triste e mais sozinha
E onde tudo parece abandonado
Um lugar pela estrela foi marcado.

Nesse lugar pensei: «Quanto deserto
Atravessei para encontrar aquilo
Que morava entre os homens e tão perto.

Sophia de Mello Breyner

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto

https://www.youtube.com/watch?v=iUUfDb_NxHg&list=RDX97ktzIjIr4&index=7   Eu que me comovo Por tudo e por nada Deixei-te parada Na be...