domingo, 1 de novembro de 2026

De mãe


O cuidado de minha poesia
aprendi foi de mãe, 
mulher de pôr reparo nas coisas, 
e de assuntar a vida. 
A brandura de minha fala
na violência de meus ditos
ganhei de mãe, 
mulher prenhe de dizeres, 
fecundados na boca do mundo. 
Foi de mãe todo o meu tesouro
veio dela todo o meu ganho
mulher sapiência, yabá, 
do fogo tirava água
do pranto criava consolo. 
Foi de mãe esse meio riso
dado para esconder alegria inteira
e essa fé desconfiada, pois, 
quando se anda descalço 
cada dedo olha a estrada. 
Foi mãe que me descegou 
para os cantos milagreiros da vida 
apontando-me o fogo 
disfarçado em cinzas
e a agulha do tempo
movendo no palheiro. 
Foi mãe que me fez sentir as flores 
amassadas debaixo das pedras; 
os corpos vazios rente às calçadas 
e me ensinou, insisto, foi ela, 
a fazer da palavra artifício 
arte e ofício do meu canto 
da minha fala.

Conceição Evaristo





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