sábado, 2 de dezembro de 2023

Poetry reading

Tsvetan would moderate the event
I sat with Charles
in a little café, in silence, a bit
uneasy before a public reading
of our poems, which always seem
defenseless at such moments—you never know,
would listeners, if any came, be ready
to forget about themselves

And would we two ignite
that rivalry the ancients
so loftily called agon,
although it’s rarely noble
nowadays, in recent times
(and likely wasn’t even then)

We said nothing, glanced at our watches;
each lost in a different city,
a different childhood, a different family
Just then a speaker started playing
the songs of Billie Holiday—she sang
from immortality, without fear
But no, not quite, her fear was now
perfectly formed, refined

It’s January here, the wet snow falls
It muffles sounds and colors
It masks the imperfections
of yet another city, hides its pettiness—

Both of you are long since gone
I turn back to that moment years ago
not from nostalgia, but because
I’ve only now begun to see
that this was an instant of brotherhood
Silent brotherhood, which survives
in spite of all

As per the fixed program
and the accepted protocol
we stood before the small crowd
We started reading
and strength returned
and we became servants of poetry,
older than us and younger,
omnipotent and helpless

Adam Zagajewski
(tradução de Clare Cavanagh)


Outra vez

 https://www.youtube.com/watch?v=mwsOgtFkFtw

Você foi o maior dos meus casos
De todos os abraços, o que eu nunca esqueci
Você foi, dos amores que eu tive,
O mais complicado e o mais simples para mim
Você foi o melhor dos meus erros
A mais estranha história que alguém já escreveu
E é por essas e outras
Que a minha saudade faz lembrar de tudo
Outra vez

Você foi a mentira sincera
Brincadeira mais séria que me aconteceu
Você foi o caso mais antigo
E o amor mais amigo que me apareceu
Das lembranças que eu trago na vida,
Você é a saudade que eu gosto de ter
Só assim sinto você bem perto de mim
Outra vez

Esqueci de tentar te esquecer
Resolvi te querer por querer
Decidi te lembrar quantas vezes
Eu tenha vontade, sem nada a perder

Ah, você foi toda a felicidade
Você foi a maldade que só me fez bem
Você foi o melhor dos meus planos
E o maior dos enganos que eu pude fazer

Das lembranças que trago na vida
Você é a saudade que eu gosto de ter
Só assim sinto você bem perto de mim
Outra vez

Isolda


quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Perto e longe

Tu
olhas para mim por um momento
olhas as nuvens por outro

Eu acho
que estás longe quando olhas para mim
e que estás perto quando olhas as nuvens

Gu Cheng


Arte poética


Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos
por dia, pois levanto-me tarde e primeiro
há que lavar os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.
E chegar à noite a casa para a prosa do jantar,
o estrondo das notícias, a louça por lavar.
Concluindo, só pelas duas da manhã
começo a despir o fato de macaco, a deixar
as imagens correr, simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.

José Miguel Silva







quinta-feira, 9 de novembro de 2023

[Quase no meu aniversário, suspendo a poesia por cinco linhas de outra coisa.]

Eu
queria mandar daqui um beijinho
só para aqueles que nos fazem sorrir
pra todos os que já não voltam mais
e todos os que ainda estão para vir

Olarilolé, olarilolei...

Pedro Mafama


As coisas que cessam

Tanto desprezo
pelo que é transitório e finito. Não servirei
senhor que possa morrer. Mas passamos
a vida a amar todas as fragilidades
das coisas que cessam. Há
coisa mais breve do que um sorriso?
Coisa mais curta que a alegria
de um reencontro? Tudo o que amamos
é passageiro e frágil ou
as duas coisas. Mas persegue-nos
a nostalgia do infindável
como uma tara hereditária.

Inês Lourenço


Amor à primeira vista


Ambos estão convencidos
que os uniu uma paixão súbita.
É bela esta certeza,
mas a incerteza mais bela ainda.
 
Julgam que por não se terem encontrado antes,
nada entre eles nunca ainda se passara.
E que diriam as ruas, as escadas, os corredores
onde se podem há muito ter cruzado. 

Gostaria de lhes perguntar
se não se lembram -
talvez nas portas giratórias,
um dia, face a face?
algum “desculpe” num grande aperto de gente?
uma voz de que “é engano” ao telefone?
- mas sei o que respondem.
Não, não se lembram.
 
Muito os admiraria
saber que desde há muito
se divertia com eles o acaso.
 
Ainda não completamente preparado
para se transformar em destino para eles,
aproximou-os e afastou-os,
barrou-lhes o caminho
e, abafando as gargalhadas,
lá seguiu saltando ao lado deles.

Houve marcas, sinais,
que importa se legíveis...
 
Haverá talvez três anos
ou terça-feira passada,
certa folhinha esvoaçante
de um braço a outro braço.
Algo que se perdeu e encontrou?
Quem sabe se já uma bola
nos silvados da infância?
 
Punhos de porta e campainhas
onde a seu tempo o toque
de uma mão tocou o outro toque.
As malas lado a lado no depósito.
Talvez acaso até mesmo um sonho
que logo o acordar desvaneceu.
 
Porque cada início
é só continuação,
e o livro das ocorrências
está sempre aberto ao meio.

Wislawa Szymborska







quinta-feira, 2 de novembro de 2023

O futuro

Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente
Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente
Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.
O que é preciso é termos confiança
se fizermos de maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.

Ary dos Santos


Receita para fazer um herói

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.


Reinaldo Ferreira


quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Escolha

Entre vento e navalha escolho o vento
entre verde e vermelho aquele azul
que até na morte servirá de espelho
ao vento que por dentro me deslumbra
Entre ventre e cipreste escolho o Sol
Entre as mãos que se dão a que se oculta
Entre o que nunca soube o que já sobra
Entre a relva um milímetro de bruma.

David Mourão-Ferreira


Che Guevara

Contra ti se ergueu a prudência dos inteligentes e o arrojo dos patetas
A indecisão dos complicados e o primarismo
Daqueles que confundem revolução com desforra
De poster em poster a tua imagem paira na sociedade de consumo
Como o Cristo em sangue paira no alheamento ordenado das igrejas
Porém
Em frente do teu rosto
Medita o adolescente à noite no seu quarto
Quando procura emergir de um mundo que apodrece

Sophia de Mello Breyner Andresen


segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Corpo Iluminado, XII (Infinito presente)


Irrompe do teu corpo iluminado
Toda a luz de que o mundo sente a falta
Não a que mais reluz, só a mais alta
Só a que nos faz ver o outro lado

Do bosque, onde o futuro e o passado
Defrontam o presente que os assalta
Oh, combate indeciso a que nem falta
O sabor de saber-se ilimitado

Irrompe assim a luz entre os extremos
Da mesma renovada madrugada

E vibra cada instante um novo grito
Com essa luz do grito é que nós vemos
Que passado e futuro não são nada
Apenas o presente é infinito

David Mourão-Ferreira


sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Eu peneiro o espírito e crivo o ritmo

Eu peneiro o espírito e crivo o ritmo
Do sangue no amor, o movimento para fora
O desabrigo completo. Peneiro os múltiplos
Sentidos da palavra que sopra a sua voz
Nos pulsos. Crivo a pulsação do canto
E encontro
O silêncio inigualável de quem escuta

Eis porque as minhas entranhas vibram de modo igual
Ao da cítara

Eu peneiro as entranhas e encontro a dor
De quem toca a cítara. A frágil raiz
De quem criva horas e horas a vida e encontra
A corda mais azul, a veia inesgotável
De quem ama
Encontro o silêncio nas entranhas de quem canta

Eis porque o amor vibra no espírito de quem criva

O músico incompleto peneira a ideia das formas
Eu sopro a água viva. Crivo
O sofrimento demorado do canto
Encontro o mistério
Da cítara

Daniel Faria


Estranho é o sono que não te devolve.

Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
De quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
De quem já só por dentro se ilumina
E surpreende
E por fora é
Apenas peso de ser tarde. Como é
Amargo não poder guardar-te
Em chão mais próximo do coração.

Daniel Faria


Qué dirá el Santo Padre...?

https://www.youtube.com/watch?v=UQ-HlmD02No&list=RDUQ-HlmD02No&start_radio=1 Miren cómo nos hablan de libertad cuando de ella nos pr...