domingo, 14 de junho de 2020

Contra a poesia pura

Basta de estrelas e de nuvens
e de pássaros

Falemos antes de gaiolas
que é tempo de conquistar o céu

António Ramos Rosa


quinta-feira, 11 de junho de 2020

Uma vez quiseram-me louca, a arder




Uma vez quiseram-me louca, a arder

e eu ardi com a discrição de
um fogo posto
porque a cura vai na mesma direcção
que a nossa febre

Ateei-me como um relâmpago inesperado
à luz do dia
Eu parecia uma basílica em chamas
de altar por estrear, a arder sozinha

Sempre me recusei a arder como os outros

Ardam-se mais à esquerda ou mais à direita
mais a vento de sul ou de norte,
mas labaredem-se, sejam fogos que ardem!

Porque pior que a desdita loucura
é toda a gente andar em brasa
mas ninguém chegar a incêndio

E no fim são todos cinza


Cláudia R. Sampaio


terça-feira, 2 de junho de 2020

Pensei

Pensei
que a liberdade vinha com a idade
depois pensei
que a liberdade vinha com o tempo
depois pensei
que a liberdade vinha com o dinheiro
depois pensei
que a liberdade vinha com o poder
depois percebi
que a liberdade não vem
não é coisa que lhe aconteça
terei sempre de ir eu.

Sónia Balacó

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Setúbal, José Oliveira


Strip-tease

Quanto mais me dispo

menos nu
me sinto

Jorge Sousa Braga


Z

As formas, as sombras, a luz que descobre a noite
e um pequeno pássaro

e depois longo tempo eu te perdi de vista
meus braços são dois espaços enormes
os meus olhos são duas garrafas de vento

e depois eu te conheço de novo numa rua isolada
minhas pernas são duas árvores floridas
os meus dedos uma plantação de sargaços
a tua figura era ao que me lembro
da cor do jardim.

António Maria Lisboa


quarta-feira, 27 de maio de 2020

Trilho de luz

Sempre que conseguia
eu acendia o meu brilho
dizia do sol o fio
seguindo da luz o trilho
*
Lembrava o abandonono
recriava a rebeldia
abria com o estilete
de Pandora a caixa fria
*
Confessava o meu
mistério
de solidão reclusa
*
Dava a ver a estrela-norte
mas também a dor infusa
contida no seu desnorte

Maria Teresa Horta


quarta-feira, 13 de maio de 2020

Rigor

De ti sei a raiz do sentimento
o lugar do rigor
rasgando a alma
*
Entre aquilo que és e não o sendo
no turvado olhar
jamais se acalma
*
Percorro solitária o meu invento
e se à razão sempre cedo
e tudo arrisco
*
Ao destino retiro o ferro da paixão
mas da fogueira do corpo
não desisto

Maria Teresa Horta


sábado, 2 de maio de 2020

Friedensreich Hundertwasser

Previous art classes | Produção de arte, Arte para impressão ...

Elementário


O verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em falar do que não pode ser dito a quem
se quer dizer

ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em não falar do que pode ser dito a quem
se quer dizer

ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em não falar do que não pode ser dito a quem
se quer dizer

ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em falar do que pode ser dito a quem
se não quer dizer

isto, claro, partindo do princípio
de que há um sentido das palavras,
verdadeiro, um poema e um
a quem se queira dizer.

Daniel Jonas

versão errática:

That happy hand, wich hardly did touch

Thy tender body to my deep delight


ANON, 1560


versão errática:

mão tão feliz de ter tocado

teu corpo atento ao meu desejo


Herberto Helder


Soneto oblíquo em rima, mas, de facto,

Havia um tempo em que esperar por ti
era consulta a meteorologia:
preparar coração, achar ali,
na coluna do lado, em geografia

de página, ou écran: coisa parecida
o sol bem desenhado, os raios com
a palavra por baixo, indicativa
de que amanhã o tempo ia ser bom.

Mas não era a palavra, era o ruído,
eu sem saber o que fazer comigo,
e o sol, caracol longo a demorar-

-se - assim era ele oblíquo de rimar;
porque eu sabia que o que ali rimava
estava em saber que vinhas. E ficavas.

Ana Luísa Amaral


Sombra de um gato

à memória de Eugénio de Andrade

Como se nota a velhice de um gato? No caso do Barnabé, a resposta, é simples: deixou praticamente de me atacar (era o seu desporto preferido, entre as seis da tarde e as duas da manhã), o pêlo foi perdendo espessura e está bastante mais magro. Os gestos, como em qualquer velhice, tornaram-se lentos e espaçados. Embaciaram ainda, numa tristeza muda, os olhos que há quinze anos me acompanham.

*

Espero, amigo gato, que não seja este o último Verão que passamos juntos. Também eu sou agora um torvelinho de cãs e de rugas breves, espalhadas sobre um rosto débil. Talvez já me pertença, de pleno direito, a hora desta terrível pergunta: «Por quanto tempo poderemos amá-los, a esses jovens, sem os ofender?». Gostava de te falar de outro assunto, de encontrar um tema diferente para a poesia de que já não sou capaz. A minha mão pousa sobre o teu dorso cansado, enquanto a noite nos cerca. Que se foda e refoda a literatura.

Manuel de Freitas

domingo, 26 de abril de 2020

Onde quer que o encontres

Onde quer que o encontres -
escrito, rasgado ou desenhado:
na areia, no papel, na casca de
uma árvore, na pele de um muro,
no ar que atravessar de repente
a tua voz, na terra apodrecida
sobre o meu corpo - é teu,

para sempre, o meu nome.

Maria do Rosário Pedreira


sábado, 25 de abril de 2020

O poema ensina a cair

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

Luiza Neto Jorge


Qué dirá el Santo Padre...?

https://www.youtube.com/watch?v=UQ-HlmD02No&list=RDUQ-HlmD02No&start_radio=1 Miren cómo nos hablan de libertad cuando de ella nos pr...